Aqui deixo a transcrição:
Lembro-me muito bem dele. Septuagenário.
Alto, calvo, elegante.
Bem o vejo, ainda hoje, cinquenta
anos volvidos, a estalar os dedos enquanto a seringa de vidro e as agulhas,
dentro de uma caixa metálica, eram desinfetadas em água a ferver. Por baixo
ardia, com chama quase invisível, aguardente daquela bem forte.
Era sempre o mesmo ritual. Um
ritual de alguns minutos a que eu assistia em silêncio, quando não era eu a
“vítima” daquelas agulhas tão compridas. Quando não, quando sobrava para mim, lá
tinha a minha avó Marquinhas de intervir e levar-me ao sacrifício por entre pés
arrastados e choro convulsivo.
Augusto, de seu nome, era,
naquele tempo, muito mais do que enfermeiro. Guardo-o como um homem sereno,
sempre aprumado e com uma delicadeza de veludo, apesar das agulhas grandes e
grossas que nos espetava nas nádegas. Não eram como essas seringas e agulhas de
hoje, descartáveis, finas e que verdadeiramente nem sentimos entrar no músculo.
Nada disso. Eram grossas e
compridas. Por onde escorria a penicilina que milagrosamente nos aliviava as
maleitas, nos baixava a febre e nos curava as anginas. Amigdalite é hoje. E
hoje curam-se com cápsulas, sem aqueles rituais das seringas a ferver!
Augusto foi enfermeiro de guerra.
Onde os fármacos e as compressas escasseavam.
Num tempo em que as guerras eram
corpo a corpo. Eram sem GPS e sem aviões teleguiados. Daquelas guerras em que
os combates acabavam à baioneta.
Formou-se nas planícies
lamacentas da Flandres. Dentro de trincheiras em que a água, tantas vezes, subia
até à cintura. Especializou-se na batalha de La Lys, ou nas tantas outras
batalhas travadas pelo corpo expedicionário português. Debaixo e dentro do
nevoeiro da primeira grande guerra. Naqueles combates de fogo intenso em que não
havia reabastecimento e tantas vezes nenhuma comunicação funcionava, quando os
exércitos eram cercados pelo inimigo; os telégrafos eram boicotados, os pombos
não podiam ser lançados devido ao fogo cruzado e os estafetas ciclistas eram
abatidos. E ali só restava a coragem; a fé; e os Augustos dos diversos
batalhões, com as suas seringas e talas sempre prontas, para socorrer os gritos
dos camaradas feridos nas primeiras e nas segundas linhas de infantaria.
Depois disto, só podia haver
veludo e afetividade naqueles olhos meigos. Naqueles olhos lhanos. Naqueles
olhos que não tendo morrido ante a miséria humana, ante a guerra, eram (só
podem ter sido sempre!) olhos de celebração, de esperança e redentores da vida.
Mesmo ante a agonia. Ante a morte.
Mas aqueles olhos de ontem são os
mesmos de hoje. Os mesmos que hoje também são cuidadores. Que são sempre uma
luz de esperança que se acende mesmo no escuro da noite mais dura. Mesmo quando
“entregamos” o corpo à contaminação de tumores de morte anunciada. Mesmo aí, há
sempre uns olhos, uma polpa de dedos suaves, dedos sem luvas esterilizadas, que
nos aconchegam a face e nos beijam a alma.
São esses toques, esses gestos,
esses afetos, que tantas vezes amansam mais a dor do que os fármacos dos
laboratórios de última geração.
Sejam Augustos, Madalenas, ou mil
nomes, seja quem for que seja. Seja no centro de saúde, no hospital, seja nos
corredores escuros das casas pobres, ou nos quartos largos dos faustos
palácios, por detrás de cada um desses seres humanos, há um coração a bater que
nos chama, um coração que quer resistir. Na quimioterapia, na diálise, nos
cuidados à comunidade, ou nos paliativos. Sempre um ser humano, tantas vezes, a
travar um combate nos limites. Na margem de todos os abismos.
E quando assim é, tantos de nós,
apelamos à fé, ao além, a um Deus maior. Mas neste aquém, neste agora, neste
aqui, como sabe bem uma voz que nos conforte, um olhar que nos inspire, umas
mãos que nos toquem, uma presença que de nós cuide. Com prazer.
Mas aquelas dificuldades de ontem,
pasme-se, são também as de hoje. Ou não estejamos também, hoje, em guerra!
Noutra guerra, mas em guerra. Na dos paraísos fiscais. Na das cegas sociedades
financeiras. Na da ganância humana. Na da gula!
Tempos estes onde, igualmente, as
espátulas ou a gaze não existem e onde as seringas escasseiam. Onde os medicamentos
se racionam e as vacinas se concedem sob pressão. Afinal, onde os cidadãos se
contorcem e morrem nos corredores dos hospitais transformados em trincheiras de
espera.
Cinquenta anos volvidos, cinquenta
anos depois de uma gratificação que era feita em alqueires ou em almudes, temos
também, hoje, profissionais, competentes e responsáveis, mas com os mesmos
problemas dos Augustos de outrora. Temos enfermeiros e tantos outros
especialistas que a sociedade tem de reconhecer, que temos de dignificar.
Passemos das palavras à prática: de
um serviço de saúde que, sendo de todos, seja, de facto, para todos!
Acácio Pinto
* texto ficcionado