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Hotel Avenida, em Viseu: quando a História entra na literatura

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Há lugares que guardam histórias. Lugares onde, por vezes, a História se fez diante de uma varanda, numa praça cheia de gente, numa palavra dita em voz alta quando falar livremente ainda era um ato de uma enorme coragem. O Hotel Avenida, em Viseu, é um desses lugares. Foi da sua varanda que Humberto Delgado falou ao povo de Viseu. Num país submetido à ditadura, a sua candidatura presidencial representou, para muitos portugueses, uma esperança de mudança e uma oportunidade de manifestar publicamente a vontade de liberdade. É por isso que regressar agora ao Hotel Avenida com o meu romance,  Um Republicano na Mira da PIDE , tem para mim um significado que vai muito além da escolha de um espaço para apresentar um livro. No próximo dia 31 de outubro, às 17h00 , ali estarei para partilhar com os leitores a história de Júlio Calisto, a figura que inspirou este romance histórico-biográfico. A apresentação estará a cargo de João Ferreira da Cruz e contará com a presença do presidente da Câm...

Uma pérola de arte nas Pedrosas

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  Há lugares que nos surpreendem pela beleza, outros pela história e outros ainda pela capacidade de nos revelarem mundos que estão tão próximos de nós. Foi um pouco de tudo isto que senti na visita que fiz ontem ao Museu de Pintura Naïf de Sátão, nas Pedrosas. Num território do interior, tantas vezes visto a partir das suas ausências e das oportunidades que lhe faltam, encontrar um espaço desta natureza é uma agradável surpresa. Mais do que um museu, estamos perante uma janela aberta para diferentes geografias, sensibilidades e maneiras de olhar o mundo. A coleção, doada por um bom amigo,  Hermínio Marques Ferreira , à Câmara Municipal de Sátão, constitui um dos grandes motivos de interesse deste espaço. A diversidade de artistas e de proveniências, com obras de Portugal, Espanha e de países da América Latina, proporciona ao visitante um percurso que atravessa culturas e universos imaginativos distintos. Na arte naïf há uma liberdade expressiva que nos interpela: a reali...

Um livro tão encantador!

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  Há histórias simples que nos encantam. Simples, mas complexas nas suas causas, nos seus conteúdos e nas suas consequências. Afonso Cruz, com a maestria habitual, traz-nos um pintor. Sors, assim se chamava, foi acolhido em casa dos seus avós, na Figueira da Foz. Precisamente, debaixo do lava-loiças. Afonso Cruz traz-nos este O Pintor Debaixo do Lava-Loiças . Fugido, lá de longe, onde a guerra, a Segunda Guerra Mundial, se encarregava de matar os judeus, este acabou em Portugal. Acabou em casa de gente decente e generosa. De gente. Que lindas metáforas. Que belas reflexões. Que prosa tão poética! Não, não está lá o conflito militar, os combates, esse não é o foco. O centro da narrativa é a família de Jozef Sors. Uma família tão simples e tão complexa nas suas formas de ser. Do pai. Da mãe. E dele próprio. Do filho. E através dela mostra-nos a vida. Nua e crua. É um olhar íntimo, intimista, sobre a condição humana. Sobre a política. A democracia. A governação. E a tolerânc...

Júlio Calisto regressa a Sátão: um romance, uma terra e uma história por descobrir

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  Há livros que nos levam a lugares distantes. Outros fazem-nos regressar às nossas origens, às nossas terras e às histórias que nelas ficaram por contar. É também isso que acontece com Um Republicano na Mira da PIDE , o romance histórico-biográfico, que chega agora a Sátão, o concelho onde nasceu, em 1897, a figura que inspirou esta narrativa: Júlio Calisto . A apresentação terá lugar no próximo dia 18 de outubro, domingo, pelas 15h30, na Biblioteca Municipal de Sátão , numa sessão que representa um momento particularmente significativo no percurso deste livro. Júlio Calisto nasceu no Tojal, freguesia de Vila de Igreja, no final do século XIX. Filho de uma costureira e de um tabelião de Ílhavo, que se encontrava colocado em Sátão, teve uma origem e um começo de vida que ajudam a compreender a personagem. É precisamente em Sátão, no dealbar do século XX, que se desenrolam algumas das primeiras cenas do romance. E é aqui que a narrativa nos aproxima das circunstâncias do seu...

A sua gramática era a da autenticidade

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“Não tenho medo de morrer.” Foi uma das últimas frases que lhe ouvi, na derradeira conversa que tive com ela, há cerca de um mês. Depois disso, não voltámos a conversar. Tentei fazê-lo há duas semanas e recebi de volta a mensagem: “Posso ligar mais tarde?” Temi o pior. Não me enganei. Partiu aquela que me conquistou, desde a primeira hora, pela força das suas palavras. Pela intrepidez de um discurso sem peias. Mulher de causas. De tantas causas. De uma transparência narrativa que ainda hoje escuto. Ouço, por entre nuvens negras, a limpidez das suas frases. Desassombradas. Que nem sempre lhe granjeavam afetos. Pois claro! Neste mundo vestido de hipocrisia, que ela não trajava nem praticava. A sua gramática era a da autenticidade. Era genuína. Falo de Virgínia da Silva Veiga . Para mim, a Dr.ª Virgínia. Conheci-a a propósito do meu último romance. E foi amizade à primeira vista. Recíproca. Falámos tanto, a propósito dessa minha história. Que se cruzava com ela. Tan...

Gicav | Anim’Arte: Há sempre alguém que diz sim à cultura!

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  Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.   Prevaleço-me desta quadra, a última, da “Trova do Vento que Passa”, de Manuel Alegre, para dizer que há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que, ao invés mas com o mesmo alcance, não diz não, diz sim. Sim à cultura, sim à arte. É o caso do GICAV , uma associação cultural de Viseu. E, ao longo destas quase quatro décadas que leva de atividade, os seus colaboradores disseram sempre sim “mesmo na noite mais triste / em tempos de servidão”, com que se foram, inevitavelmente, confrontando, ao longo do tempo. E continuam, hoje, aqui e agora, a dizer sim nestes tempos de prosa dura, de ventos hostis à liberdade, em que os poderes tendem a olhar de viés os movimentos de cidadãos livres. Os livres-pensadores. Aqueles que por vezes são dissonantes da horda física e digital que, quantas vezes acriticamente, os segue. Vem isto a propósito dos prémios A...

5 de Outubro: quando uma data era também uma forma de resistência

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Hoje, 5 de outubro, assinalamos a implantação da República em Portugal. É uma data que faz parte da nossa História. Mas, para algumas das personagens de Um Republicano na Mira da PIDE , era muito mais do que uma página do passado. Para Júlio Calisto, Mário Sacramento, Eduarda Senos, Joaquim da Silva, Sizenando Cunha, Manuel das Neves, Costa e Melo e outros democratas e oposicionistas que atravessam as páginas do romance, o 5 de Outubro era uma data que se vivia e se evocava. Em diferentes momentos, assinalavam a implantação da República com um jantar, com um encontro ou com uma iniciativa que mantivesse viva a memória daquele 5 de outubro de 1910. E isso tinha um significado especial. Porque, durante o Estado Novo, celebrar a República não era apenas recordar um acontecimento ocorrido décadas antes. Era também recordar uma ideia de liberdade, de cidadania e de participação política que o regime autoritário procurava limitar. Para homens e mulheres que continuavam a acreditar na democr...