Por: João Ferreira da Cruz Após a leitura de O Emigrante aqui fica uma nota sobre a interessante intertextualidade do romance. A narrativa organiza-se por planos sucessivos de sentido. Inicialmente, a emigração de Renato para França, a salto, surge como resposta à precaridade económica, refletindo uma determinação social clara. Neste primeiro registo, a psicologia das personagens (Augusto/ Renato) é funcional, articulada à necessidade material, e a narrativa inscreve-se numa tradição de realismo social, mostrando a partida como gesto compreensível e socialmente tipificado. A tensão ética e psicológica emerge com a chegada da carta anónima reveladora da consanguinidade entre Renato e Adelaide. O dispositivo introduz segredo de forma externa à experiência imediata das personagens, criando desfasamento entre saber e ação. Renato retém o segredo enquanto está em França, e a densidade psicológica do romance constrói-se sobretudo pelo silêncio, pela contenção e pelo não-dito, mais d...
Vivemos tempos em que os perigos surgem de lugares e de pessoas completamente imprevistos. Não é só a nível climático! Porventura, esse até será o mais previsível face à sociedade de consumo que construímos e aos gases libertados para a sobrealimentar. O maior problema está nas inter-relações entre as pessoas. No debate efetuado na polis . E não quero dissecar agora sobre o contributo das redes sociais para este sobreaquecimento permanente que se vive na sociedade. Não sendo especialmente habilitado para adivinhar o futuro (há por aí profissionais nessa matéria), creio que esta constante agitação e caça ao tesourinho , que tendemos a fazer, numa desenfreada disputa pela coleção desses troféus, só trará mais lama para a arena. E, dessas escorregadelas, quem aproveitará serão, inevitavelmente, os mesmos de sempre: os populistas, que, invariavelmente, se radicalizam nos extremos. Não esteve na origem desta crónica nenhum caso recente, nem nenhum em concreto, que por aí abundam à...