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A sua gramática era a da autenticidade

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“Não tenho medo de morrer.” Foi uma das últimas frases que lhe ouvi, na derradeira conversa que tive com ela, há cerca de um mês. Depois disso, não voltámos a conversar. Tentei fazê-lo há duas semanas e recebi de volta a mensagem: “Posso ligar mais tarde?” Temi o pior. Não me enganei. Partiu aquela que me conquistou, desde a primeira hora, pela força das suas palavras. Pela intrepidez de um discurso sem peias. Mulher de causas. De tantas causas. De uma transparência narrativa que ainda hoje escuto. Ouço, por entre nuvens negras, a limpidez das suas frases. Desassombradas. Que nem sempre lhe granjeavam afetos. Pois claro! Neste mundo vestido de hipocrisia, que ela não trajava nem praticava. A sua gramática era a da autenticidade. Era genuína. Falo de Virgínia da Silva Veiga . Para mim, a Dr.ª Virgínia. Conheci-a a propósito do meu último romance. E foi amizade à primeira vista. Recíproca. Falámos tanto, a propósito dessa minha história. Que se cruzava com ela. Tan...

Gicav | Anim’Arte: Há sempre alguém que diz sim à cultura!

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  Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.   Prevaleço-me desta quadra, a última, da “Trova do Vento que Passa”, de Manuel Alegre, para dizer que há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que, ao invés mas com o mesmo alcance, não diz não, diz sim. Sim à cultura, sim à arte. É o caso do GICAV , uma associação cultural de Viseu. E, ao longo destas quase quatro décadas que leva de atividade, os seus colaboradores disseram sempre sim “mesmo na noite mais triste / em tempos de servidão”, com que se foram, inevitavelmente, confrontando, ao longo do tempo. E continuam, hoje, aqui e agora, a dizer sim nestes tempos de prosa dura, de ventos hostis à liberdade, em que os poderes tendem a olhar de viés os movimentos de cidadãos livres. Os livres-pensadores. Aqueles que por vezes são dissonantes da horda física e digital que, quantas vezes acriticamente, os segue. Vem isto a propósito dos prémios A...

5 de Outubro: quando uma data era também uma forma de resistência

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Hoje, 5 de outubro, assinalamos a implantação da República em Portugal. É uma data que faz parte da nossa História. Mas, para algumas das personagens de Um Republicano na Mira da PIDE , era muito mais do que uma página do passado. Para Júlio Calisto, Mário Sacramento, Eduarda Senos, Joaquim da Silva, Sizenando Cunha, Manuel das Neves, Costa e Melo e outros democratas e oposicionistas que atravessam as páginas do romance, o 5 de Outubro era uma data que se vivia e se evocava. Em diferentes momentos, assinalavam a implantação da República com um jantar, com um encontro ou com uma iniciativa que mantivesse viva a memória daquele 5 de outubro de 1910. E isso tinha um significado especial. Porque, durante o Estado Novo, celebrar a República não era apenas recordar um acontecimento ocorrido décadas antes. Era também recordar uma ideia de liberdade, de cidadania e de participação política que o regime autoritário procurava limitar. Para homens e mulheres que continuavam a acreditar na democr...

Lisboa: um lugar que parece escolhido pelo próprio romance

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  Há apresentações de livros. E há apresentações que, pela história, pelo lugar e pelas pessoas que nelas participam, parecem ganhar uma dimensão que ultrapassa o próprio livro. É o que sinto em relação à apresentação de Um Republicano na Mira da PIDE em Lisboa. Depois de Ílhavo, onde o romance foi apresentado no passado dia 3 de julho, a obra chega agora à capital. Será no próximo dia 8 de outubro, às 18h30, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, em Lisboa , na Rua de São Bento, 160. E dificilmente poderia imaginar um lugar mais adequado para apresentar este romance. Um Republicano na Mira da PIDE é um romance histórico-biográfico inspirado na vida de Júlio Calisto , advogado, republicano e opositor da ditadura e do Estado Novo, nascido no concelho de Sátão e falecido em Ílhavo, em 1973. A sua vida cruza-se com algumas das páginas mais difíceis da história portuguesa do século XX: a ditadura, a repressão política, a vigilância da PIDE, as campanhas eleitorais da opo...

Quando os leitores querem fazer a rota dos romances

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LER TAMBÉM AQUI . Há experiências que nos ficam na memória de uma forma muito especial. E a que vivi no passado dia 26 de setembro foi, para mim, uma dessas experiências. Tive o enorme gosto de acompanhar 23 leitores espanhóis do Clube de Leitura “Leituras à Volta da Mesa” , de Salamanca, numa jornada a que deram o nome de “Rotas literárias portuguesas inspiradas nos livros O Volframista e O Leitor de Dicionários ” . Foi um magnífico dia pelos lugares que deram corpo e inspiração aos dois romances. Mas, sobretudo, foi um dia de encontro, de partilha e de diálogo em torno dos livros e das histórias que neles se contam. A manhã foi dedicada a O Volframista . Começámos na Queiriga, concelho de Vila Nova de Paiva, com uma visita à exposição fotográfica “Queiriga, Terra de Minas e de Mineiros”, que nos transportou para um tempo em que a exploração do volfrâmio marcou profundamente a vida desta comunidade. Depois, seguimos para as minas do Rebentão, no Couto Mineiro de Lagares. Ali, nas gal...

Filipa Martins esteve na Biblioteca da Figueira da Foz

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A rentrée das 5.asde Leitura , iniciativa da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz , teve lugar no dia 17 de setembro, após a paragem de agosto! O pontapé de entrada na estação de outono-inverno foi dado pela Filipa Martins , romancista, argumentista e autora de vários livros. Na moderação, desta feita, esteve Manuel Portela que abriu com um excelente texto (mas um tudo-nada spoiler)  interpretado a duas vozes, a sua e a de Maria José Paiva Carvalho. Quanto à convidada, que não conhecia, que nunca tinha ouvido, que nunca tinha lido (falha minha!), desfiou-nos os meandros do seu último romance,  No Meu Fim Está o Meu Começo . Os processos que estiveram na sua génese. As envolvências familiares que o enredaram. A sua mãe. A sua avó. Os filhos de pais incógnitos. E o contexto social de uma época, bem datada. O Estado Novo. Em que a intimidade era devassada. A vigilância era apertada. A mulher era subjugada. A violação não existia. Porque a palavra era desconhecida. ...

Lavadouro de Buarcos recebeu O Emigrante

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O Emigrante , de Acácio Pinto,   foi muito bem recebido numa terra que também é sua. Desde a sua génese. Desde que a ideia germinou que o concelho da Figueira da Foz - sobretudo Bunhos (nome literário de Buarcos), Serra da Boa Viagem e Murtinheira (Quiaios) - faz parte da sua geografia, juntamente com a região de Viseu. Desde o início que estas ' personagens espaciais' acompanham esta narrativa que tem como foco principal a emigração a salto para França nos anos 60. E não só. Uma vez que depois do regresso das personagens a Portugal, depois da emigração, há uma catadupa de pormenores, de segredos que vão fazer a narrativa evoluir de forma surpreendente. Pois bem, foi no dia 19 de setembro que os buarquenses e os figueirenses puderam escutar as palavras competentes de Isac Loureiro, o apresentador do romance O Emigrante, numa sessão que teve lugar no Lavadouro de Buarcos. Antes dele falou a presidente da Junta de Freguesia de Buarcos, Rosa Batista, que usou da palavra para sau...