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DESTAQUES

O Emigrante: Um livro sobre emigração e tensões éticas e psicológicas

  Por: João Ferreira da Cruz Após a leitura de O Emigrante aqui fica uma nota sobre a interessante intertextualidade do romance. A narrativa organiza-se por planos sucessivos de sentido. Inicialmente, a emigração de Renato para França, a salto, surge como resposta à precaridade económica, refletindo uma determinação social clara. Neste primeiro registo, a psicologia das personagens (Augusto/ Renato) é funcional, articulada à necessidade material, e a narrativa inscreve-se numa tradição de realismo social, mostrando a partida como gesto compreensível e socialmente tipificado. A tensão ética e psicológica emerge com a chegada da carta anónima reveladora da consanguinidade entre Renato e Adelaide. O dispositivo introduz segredo de forma externa à experiência imediata das personagens, criando desfasamento entre saber e ação. Renato retém o segredo enquanto está em França, e a densidade psicológica do romance constrói-se sobretudo pelo silêncio, pela contenção e pelo não-dito, mais d...
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Andam difíceis os tempos desta modernidade

Vivemos tempos em que os perigos surgem de lugares e de pessoas completamente imprevistos. Não é só a nível climático! Porventura, esse até será o mais previsível face à sociedade de consumo que construímos e aos gases libertados para a sobrealimentar. O maior problema está nas inter-relações entre as pessoas. No debate efetuado na polis . E não quero dissecar agora sobre o contributo das redes sociais para este sobreaquecimento permanente que se vive na sociedade. Não sendo especialmente habilitado para adivinhar o futuro (há por aí profissionais nessa matéria), creio que esta constante agitação e caça ao tesourinho , que tendemos a fazer, numa desenfreada disputa pela coleção desses troféus, só trará mais lama para a arena. E, dessas escorregadelas, quem aproveitará serão, inevitavelmente, os mesmos de sempre: os populistas, que, invariavelmente, se radicalizam nos extremos. Não esteve na origem desta crónica nenhum caso recente, nem nenhum em concreto, que por aí abundam à...

Contra a Barbárie: uma excelente leitura para os nossos dias

  Dizem que a História tende a repetir-se. Pois bem, eu direi: espero e desejo que não, na vertente subjacente a este livro de Klaus Mann. Contra a Barbárie é um bom exemple, em poucas páginas, para efetuarmos uma incursão nesse passado, não muito longínquo, mas que existiu, para mal dos nossos pecados. É uma boa leitura para que a nossa consciência se torne mais aguda e crítica quando se trata de confrontos bárbaros Este livro, deste alemão, nascido em 1906, Klaus Mann, traz-nos um conjunto de textos, que ele escreveu nos anos 30 e 40, que dizem bem que a barbárie, ontem como hoje, pode começar por “bater levemente”, a entrar pela porta da democracia (e quando assim é, o que podem fazer os democratas?) e alapar-se nas várias instâncias, começando a marcar o território. Step by step , vão instalando os seus tentáculos a tudo quanto são os difusores das ideias, os livres-pensadores e os influenciadores das pessoas. Estarão na sua mira os jornais, as rádios e as televisões, as...

MAR: um restaurante de paladares de sonho, na Praia de Quiaios

  Ali, a dois passos do areal, na Praia de Quiaios , há um restaurante que é um verdadeiro oásis para o palato. Que é uma viagem pelo interior de sabores mágicos. MAR de seu nome — qual outro poderia ser? — este palco, que nos enfeitiça com pábulos encantados, não nos deixa margem para que o não voltemos a pisar. E se se costuma dizer que o diabo está nos detalhes, neste (aquém) MAR o diabo está em todo o lado, desde o prelúdio até ao epílogo. Ora saboreiem — desculpem, imaginem, porque ainda não foram inventadas as palavras que consigam significar tais paladares. Será que conseguem traduzir a densidade de sabores que o queijo camembert com cebola caramelizada e amêndoa fatiada, de entrada, nos proporciona? Eu não consigo! Delicioso, porém! E como se escreve o travo das zamburinhas no forno, com sabor a mar e com uma gota de limão a gosto? Não sei! Só sei que o céu-da-boca foi ao céu! E lulas grelhadas com puré de feijão branco e maçã palitada? De três assobios! É...

Murakami partilha as suas reflexões sobre a escrita de romances

    Haruki Murakami, romancista japonês que anda há muitos anos nas bocas do mundo, quis partilhar com os seus leitores o seu processo criativo de escrita de romances, o que faz através do livro Romancista como Vocação . Numa linguagem envolvente e transparente, ele vai desfiando — com base na sua experiência concreta, na evolução que ele teve como escritor, desde os primeiros tempos até se tornar romancista em exclusividade — e dissecando sobre os vários aspetos correlacionados com o seu processo de escrita romanesca. E não se pense que este livro é como que um manual que, depois de lido, nos transforma em romancistas. Não, porque, refere ele, só há uma maneira de sabermos se dispomos dessas qualidades: “atirarmo-nos à água e ver se flutuamos ou se nos afundamos”. Acrescentando: “só aqueles que, contra ventos e marés, querem escrever, que não conseguem ficar sem o fazer, produzem romances”. Aborda também a questão dos prémios literários. Da forma como muitos escritore...

Jornais de Ílhavo de há 100 anos: O Ilhavense, Beira-Mar e O Nauta

  Esta breve crónica vem a propósito de uma pesquisa que estou a desenvolver e que levará à escrita e publicação, durante este ano, de um romance histórico biográfico a editar por Letras e Conteúdos . A inspiração da narrativa centra-se numa personalidade que não sendo natural  Ílhavo  lá passou a maior parte da sua vida. E foi nessa investigação que me confrontei com o facto de, nos anos 20, mais concretamente, em 1926, existirem no concelho três jornais com edição regular, o que reputo de muito relevante e diz bem do dinamismo social, cultural e político de Ílhavo, nessa época em que se passam algumas das cenas de tal narrativa.  Falamos, pois, de O Ilhavense , dirigido por José Pereira Teles, Beira-Mar , com dois diretores, Cesário da Cruz e Guilhermino Ramalheira, e O Nauta , cujo diretor era Procópio D’Oliveira. Cada um deles, não o escondia, bastará ler as respetivas edições, tinha as suas idiossincrasias e os seus alinhamentos políticos a nível local e nacio...

O GRITO: Uma minissério da RTP com o foco na escola portuguesa

Em oito episódios de 45 minutos, está lá tudo. Tudo o que tem a ver com educação em Portugal. O modelo de gestão. O papel da escola na sociedade. A carreira e a autoridade dos professores. A burocracia. A avaliação docente e a avaliação dos alunos. Os rankings das escolas. As greves. O bullying . A violência. Os consumos de estupefacientes. O stress. O mau comportamento na sala de aula. O uso de telemóvel. O que temos nesta série  – disponível na RTP Play –  é uma incursão ao seio de uma escola (afinal de todas as escolas) e ao seio de uma família (de muitas famílias). E o enredo, sóbrio, mas assertivo, deixa-nos permanentemente em questionamento. Arrasta-nos para dentro dos problemas, numa espiral de suspense, ao ponto de querermos saber mais. Saber dos desenlaces. Mas não se pense que há uma cedência ao drama puro e duro. Não, o argumento não vai além da realidade. Da vida. Tal qual nós a sabemos e a sentimos. Tal qual ela é. Enfim, poderemos dizer que esta minissérie f...