Em memória de Senos da Fonseca
Falei com ele uma única vez. Foi no dia 27 de junho de 2025, na sua casa da Costa Nova. — Fui eu que fiz o projeto. É um navio com a quilha virada para o céu — logo me disse quando eu admirava a arquitetura daquela magnífica vivenda, virada para a ria. — Mas entre. Entrei e o melhor estava para vir. A decoração interior. Os elementos náuticos. As cores. As madeiras. As janelas. — Sente-se — sugeriu. — Conversamos melhor sentados. Sentei-me e senti-me mar adentro. Ondulação forte. Sem medo. Ao lado do comandante, sereno e conhecedor de todos os segredos do mar alto. Falo-vos de um ilhavense. De um homem nado no final dos anos 30. De um genuíno conversador. Falámos de livros. De política. Do Estado Novo. E da oposição que a sua mãe, Eduarda, sempre fez ao regime. A sua mãe e tantos outros. Nomeadamente o advogado Júlio Calisto, a razão para a nossa conversa. — Conheci-o bem. Sabe que fui várias vezes com a minha mãe, ainda miúdo, às reuniões da oposição que se faziam em casa ...