Vivemos tempos em que os perigos surgem de lugares e de pessoas completamente imprevistos.
Não é só a nível climático! Porventura, esse até será o mais
previsível face à sociedade de consumo que construímos e aos gases libertados
para a sobrealimentar.
O maior problema está nas inter-relações entre as pessoas.
No debate efetuado na polis.
E não quero dissecar agora sobre o contributo das redes
sociais para este sobreaquecimento permanente que se vive na sociedade.
Não sendo especialmente habilitado para adivinhar o futuro
(há por aí profissionais nessa matéria), creio que esta constante agitação e
caça ao tesourinho, que tendemos a
fazer, numa desenfreada disputa pela coleção desses troféus, só trará mais lama
para a arena. E, dessas escorregadelas, quem aproveitará serão, inevitavelmente,
os mesmos de sempre: os populistas, que, invariavelmente, se radicalizam nos
extremos.
Não esteve na origem desta crónica nenhum caso recente, nem
nenhum em concreto, que por aí abundam às centenas, à esquerda, à direita e ao
centro. Considerem este texto, tão só, como uma reflexão (a minha) que visa auscultar-me
a mim em primeiro lugar. Alguém que gosta que as escorregadelas e as blagues
daí resultantes sejam, sobretudo, tratadas pelos humoristas. Os políticos
deveriam ter mais que fazer.
As minhas ilusões sobre uma melhoria dos comportamentos
sociais, neste âmbito, não são grandes. Nem poderiam ser. Basta conhecer a
génese do ser humano! Porém, que gostaria de um debate com o foco na resolução
dos problemas das pessoas, com o centro na apresentação de propostas concretas,
lá isso gostaria.
Eu bem sei que os terrenos subjacentes a esta crónica são
profundamente movediços e instáveis, que há outros olhares, para uma mesma
realidade. Mas se a contenção, nos momentos em que muitas das infraestruturas
do país colapsam, não estiver além de um simplista tiro de canhão na
comunicação social que nada resolve e só confunde, o pasto para este fogo
alastrará ainda mais.
Quiçá, alguns políticos, que sejam genuínos amantes da democracia, nem se
darão conta de que, de cada vez que derem corpo aos tesourinhos de que tanto gostam, estão a engordar os pastores que vivem exclusivamente disso.
O resultado será o de que as ovelhas desses zagais, ululantes, aumentarão ainda mais, até serem alegremente enredadas no curral (da ditadura) donde, depois, teremos dificuldade em sair.
Acácio Pinto
