Haruki Murakami, romancista japonês que anda há muitos anos
nas bocas do mundo, quis partilhar com os seus leitores o seu processo criativo
de escrita de romances, o que faz através do livro Romancista como Vocação.
Numa linguagem envolvente e transparente, ele vai desfiando
— com base na sua experiência concreta, na evolução que ele teve como escritor,
desde os primeiros tempos até se tornar romancista em exclusividade — e
dissecando sobre os vários aspetos correlacionados com o seu processo de escrita
romanesca.
E não se pense que este livro é como que um manual que,
depois de lido, nos transforma em romancistas. Não, porque, refere ele, só há
uma maneira de sabermos se dispomos dessas qualidades: “atirarmo-nos à água e
ver se flutuamos ou se nos afundamos”. Acrescentando: “só aqueles que, contra
ventos e marés, querem escrever, que não conseguem ficar sem o fazer, produzem
romances”.
Aborda também a questão dos prémios literários. Da forma
como muitos escritores os veem e dos impactos que podem ter junto dos leitores,
mas nem por isso deixa de considerar que tem havido muitos prémios relevantes
atribuídos a autores de quem ele nunca leu nem lerá sequer uma linha. Diz mesmo que “o que fica para a posteridade
são as obras, e não os prémios”.
E pergunta: O leitor lembra-se quem ganhou o Nobel da
Literatura há três anos?
“Mas, se uma obra for efetivamente boa, resistirá ao teste
do tempo e será lembrada para sempre”.
Aborda também a originalidade, perguntando-se: “O que é a
originalidade? E responde: possuir estilo próprio; ser capaz de melhorar o
próprio estilo; e com o tempo a originalidade deve converter-se num padrão.
Mas a grande recomendação que deixa é “ler muito”, analisar
a realidade, guardar detalhes, gravar pormenores e reter as experiências, depositando-as
dentro de si. Acumular um grande volume de “matérias-primas”. A este propósito
cita James Joyce para dizer que a sua “imaginação é a memória”. É aí, à sua
memória que ele também vai, quando escreve. Recorre a esse armazém, e às
gavetas onde tem os materiais arquivados, para se inspirar. E há algumas dessas
gavetas que nem chega a abrir quando da escrita de um romance, o que quer dizer
que, esse material em excesso lá fica guardado à espera de utilização futura.
Depois é o tempo. A gestão do tempo. E aí ele fala da
importância de criar uma rotina, onde não pode faltar a componente física: correr,
fazer exercício físico, porque o processo de escrita exige um grande esforço.
Diz mesmo: “Sempre tive a consciência profunda e espontânea de que correr era
indispensável”.
E qual a importância da escola? Curiosamente, dizendo que
nunca gostou de estudar, fala da sua importância e das contradições por que
passa o sistema de ensino no Japão, mas acaba por concluir: “No meu caso, ao
olhar para trás, dou-me conta de que a ajuda mais válida que tive na época em
que frequentava a escola foi proporcionada por meia dúzia de bons amigos e
pelos muitos livros que li. (…) Se não existissem livros, se não tivesse lido tantos,
penso que a minha vida teria sido mais cinzenta e sombria”.
E também nos fala de quais personagens criar. E sobre isso
ele diz-nos basicamente que elas vão surgindo e ganhando vida própria durante o
romance. Que não são predeterminadas e que até influenciam o rumo da narrativa.
Diz-nos ele: “Sempre que começo a escrever um novo romance fico empolgado,
perguntando-me que género de pessoas vou encontrar desta vez.”
Para quem escreve Murakami?
“Nunca senti que estava a escrever um romance para alguém em
particular”, reponde ele à própria pergunta. “De certa forma, a verdade é que
escrevo para mim próprio (…) escrevo para o meu próprio regozijo”.
TÍTULO: Romancista como Vocação
AUTOR: Haruki Murakami*
EDITORA: Casa das Letras, março de 2024 | Grupo Leya
PÁGINAS: 232
Recensão de Acácio Pinto | LETRAS E CONTEÚDOS
* HARUKI MURAKAMI é, sem dúvida, um autor de culto, lido por
todas as gerações e procurado com especial curiosidade pelos jovens leitores,
encontrando-se traduzido em mais de 50 línguas. Sendo um dos escritores
japoneses contemporâneos mais divulgado em todo o mundo, é simultaneamente
aplaudido pela crítica, que o considera um dos «grandes romancistas vivos» (The
Guardian).
Haruki Murakami recebeu vários doutoramentos honoris causa
pelas universidades do Havai, Liège e Princeton em reconhecimento da sua obra,
recompensada através da atribuição de importantes galardões internacionais, com
destaque para os prémios Noma, Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka, Jerusalém e Hans
Christian Andersen.
In: Leya
