Chegou o momento de revelar o nome do republicano que une os concelhos de Sátão e o de Ílhavo. Trata-se de Júlio Correia da Rocha Calisto, um democrata e republicano que inspirou o meu próximo romance, de feição histórico-biográfica, UM REPUBLICANO NA MIRA DA PIDE, a ser lançado no verão, por ocasião do centenário da sua passagem pela presidência da Câmara Municipal de Ílhavo — mais rigorosamente, Comissão Administrativa da Câmara Municipal.
Não vou revelar alguns dos episódios, muitos verdadeiramente inauditos, relacionados com esta personalidade que, tendo nascido no lugar
do Tojal, concelho de Sátão, em 23 de agosto de 1897, faleceu em Ílhavo, em 4 de agosto de 1973, onde fez toda a sua vida adulta e onde exerceu a atividade profissional como advogado, a partir de finais de 1923, ano em que tinha concluido a sua licenciatura em Direito
na Universidade de Coimbra.
Está claro que a sua vida foi feita de uma intensa ação
política em Ílhavo e na região de Aveiro, que se iniciou com a sua chamada para
a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Ílhavo, a que presidiu, entre
julho e outubro de 1926. Esta sua passagem pela autarquia revelou-se muito agitada. Júlio Calisto acabou por ser substituído por quem ele próprio fora substituir: Diniz
Gomes.
Depois, finais dos anos 20, anos 30 e 40 foram tempos
conturbados, em que a sociedade ilhavense se partiu entre os apoiantes de Diniz
Gomes, maioritários, e os apoiantes da oposição, em que sobressaía Júlio
Calisto.
Em 1949, depois de ter apoiado Norton de Matos e de uma
enorme polémica que se viveu a esse propósito, que vou deixar para o romance,
foi preso para investigação contra a segurança do Estado. A ordem de prisão foi assinada pelo Presidente de Câmara à época, Francisco Abreu, que por
inerência de funções era Delegado da Polícia e, iualmente, Provedor da
Misericórdia.
Esteve nos calabouços da PIDE no Porto, tendo sido libertado por falta de provas
para tal.
Júlio Calisto aoiou Quintão Meireles e Humberto Delgado e participou nas
campanhas da oposição para as eleições à Assembleia Nacional de 1949, 1953, 1957,
1961, 1965 e 1969. Em 1957 integrou a lista do círculo de Aveiro em 2.º lugar,
atrás do arquiteto Alfredo Magalhães que a liderava.
Coorganizou a Conferência de Jaime Cortesão em 1956, a
propósito do 16 de maio de 1828, e esteve ligado aos congressos republicanos de
1957 e 1969. Nestas iniciativas pontificava Mário Sacramento.
Em 1962, em dezembro, depois de muita vigilância, a PIDE
lançou uma grande operação na região de Aveiro que haveria de levar Júlio Calisto para Caxias e para além dele, os seguintes democratas e republicanos: Guilherme
de Oliveira Santos; João Evangelista Vieira Sarabando; Manuel das Neves;
Joaquim Soares Rodrigues da Silva; José de Oliveira e Silva; Manuel da Costa e
Melo; Virgílio Pereira da Silva; Reinaldo Marques Saraiva; Manuel Ferreira dos
Santos Pato; António Manuel de Figueiredo Leite; Mário Emílio de Morais
Sacramento; Armando Sucena Seabra; Alfredo António Pereira; José Maria de
Oliveira Gouveia; Eduardo de Oliveira e Sousa dos Santos; e Álvaro José Pedrosa
Curado de Seiça Neves.
Acrescento que após longos interrogatórios a Júlio Calisto e
aos demais, a PIDE só os começou a libertar a partir de janeiro, ainda assim, a
maioria sob caução cujo maior valor foi o de Mário Sacramento (50 contos).
De muitos mais, mesmo
muito mais detalhes, constará este romance, todavia, creio que compreenderão,
ficarão para o livro a lançar em Ílhavo no verão, numa sessão que será devidamente
divulgada.
NOTA: Já contactei algumas pessoas que conheceram Júlio Calisto
e que me contaram aquilo que sabiam acerca dele. Se outras houver naquelas
condições e que o queiram fazer aqui fica o repto. Os depoimentos orais melhorarão,
com certeza, as pesquisas que efetuei nas atas do Município de Ílhavo, nos
jornais da região, nos Arquivos de Ílhavo e de Aveiro e na Torre do Tombo.
Acácio Pinto
