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O Emigrante: Um livro sobre emigração e tensões éticas e psicológicas

 


Por: João Ferreira da Cruz

Após a leitura de O Emigrante aqui fica uma nota sobre a interessante intertextualidade do romance. A narrativa organiza-se por planos sucessivos de sentido. Inicialmente, a emigração de Renato para França, a salto, surge como resposta à precaridade económica, refletindo uma determinação social clara. Neste primeiro registo, a psicologia das personagens (Augusto/ Renato) é funcional, articulada à necessidade material, e a narrativa inscreve-se numa tradição de realismo social, mostrando a partida como gesto compreensível e socialmente tipificado.

A tensão ética e psicológica emerge com a chegada da carta anónima reveladora da consanguinidade entre Renato e Adelaide. O dispositivo introduz segredo de forma externa à experiência imediata das personagens, criando desfasamento entre saber e ação. Renato retém o segredo enquanto está em França, e a densidade psicológica do romance constrói-se sobretudo pelo silêncio, pela contenção e pelo não-dito, mais do que pela introspeção.

A revelação definitiva só ocorre após a morte de Miguel Contreiras (Miguelzinho) quando Renato comunica o conteúdo da carta anónima a Adelaide. Mesmo aí, o conflito moral permanece aberto, e a emigração económica inicial é reinterpretada como espaço em que o segredo é transportado e carregado, sem resolução. A narrativa sobrepõe assim registos, socioeconómico, moral e psicológico, criando tensão contínua e complexidade interpretativa.

O uso da carta situa o romance numa tradição literária de segredos mediados por textos, como em Eça de Queirós (Os Maias), Flaubert (Madame Bovary) Dostoiévski e Poe (A carta roubada).Nestes casos, tal como em O Emigrante, o dispositivo textual controla a circulação do saber, densifica a tensão psicológica e moral obrigando o leitor a reler os acontecimentos à luz de novas informações. O efeito é uma narrativa aberta, em que forças sociais, éticas e simbólicas se articulam, mantendo a narrativa viva e complexa, sem solução fácil. O tom catártico gradual, acumulativo e ético termina trágico, sem resolução plena.

Recensões de João Cruz: O VOLFRAMISTA | O LEITOR DE DICIONÁRIOS

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