O que é que uma Casal Boss tem a ver com a distribuição do Avante, em Ílhavo?
Durante o Estado Novo os subterfúgios utilizados pelos
oposicionistas eram inúmeros para contornarem a vigilância da PIDE. Diga-se, em
abono da verdade, que o inverso era igualmente verdadeiro.
Vem esta crónica a propósito da distribuição do jornal Avante no concelho de Ílhavo, antes do
25 de abril, em que era utilizada a motorizada Casal Boss que se encontra na
foto.
Os protagonistas foram dois ilhavenses a quem vou chamar de Tenreiro
e Álvaro, embora os pudesse designar com outros nomes, pois tantos foram aqueles
que desenvolveram um intenso e perigoso trabalho em prol da conquista da democracia
e da liberdade.
Tenreiro era um ativo comunista, funcionário público na vila, que recebia pelo seu controleiro os materiais e a linha política dimanada do Comité Central. Tudo lhe chegava depois de um ritual de senhas e de contrassenhas devidamente combinadas.
A ele, localmente, cabia-lhe tentar alargar a influência
e angariar mais pessoas para a causa. Foi o que Tenreiro fez, mobilizando
para esta missão Álvaro, um jovem que, igualmente, era funcionário público.
E uma dessas tarefas, que os dois executavam rigorosamente,
era a de distribuírem o jornal Avante
a um conjunto de pessoas do concelho que partilhavam daqueles ideais.
Principalmente, a operários da fábrica da Vista Alegre.
E, de motorizada, fizesse frio ou calor, lá iam eles, os
dois, um à frente e outro atrás, indistintamente, com os jornais escondidos por
debaixo da camisola, levar a carta a Garcia, sem que nunca tivessem sido
intercetados, nessa missão, pelas forças de segurança. Por vezes tiveram
receio, mas sempre conseguiram entregar as novidades aos que delas estavam
ávidos.
Esta história e muitas outras farão parte do romance UM
REPUBLICANO NA MIRA DA PIDE que lançarei no verão no concelho de Ílhavo e em que a personagem principal é Júlio, inspirada na vida de Júlio Correia da Rocha Calisto.
Acácio Pinto
