Surpreendente. Um livro que nos traz (me trouxe) uma
frescura narrativa nestes tempos de cânones artificializados.
Trata-se do romance agarrar
a faca pelo gume, de Inês Bernardo.
Li-o de duas assentadas. Uma no Bart, na Praia de Quiaios, e a outra, em casa, no terraço, sob os raios do sol de março. E não se pense que terminei o livro ali, na página 107, quando fui confrontado com a frase, supostamente a última, “uma mulher agarra sempre a faca pelo gume”(ditado de um povo da África do Sul) . Não. Continuei a lê-lo. Por mais algum tempo estive a remoê-lo. De olhos no horizonte. No dorso da Serra da Boa Viagem, lá ao longe, espetado no mar. Foi um bom quarto de hora. De degustação. A saborear a catadupa de cenas que, ainda agora, um dia depois, quando escrevo, me sobem ao palato.
Está lá a mulher. Tantas mulheres. Um olhar. Tantos olhares intrusivos. Nas suas vidas. Todas diferentes ou todas iguais no condicionamento social e político? E o homem? Os homens? Também! São uma presença de ausências feita. De distância. De partidas. De toca e foge.
Sim, mas são elas, as mulheres, que agarram, nesta narrativa intensa, a
faca pelo gume. E está lá o gume e até a ponta da faca, página a página.
Lembrei-me de José Luís Peixoto. Ao ler este romance de
estreia de Inês Bernardo. Foi de imediato. Saltou-me. Veio-me á memória a prosa
poética, também de estreia, daquele, com o livro Morreste-me.
Os dois intimistas. Confessionais. Catárticos (?). Gritos que não mais podiam
ser abafados. Na primeira pessoa. Todavia, os dois tão diferentes. No conteúdo. No magma de onde
brotaram. Na lava que expeliram.
Este é daqueles livros que não se esquecem. Não sei se será
pelo título. Arrojado. Aposto, porém, no conteúdo. Nas teias de aranha que nos
mostra, desta sociedade que teima em replicar estereótipos. Normalidades.
Versos. Esquecendo, ostracizando mesmo, as diferenças. Os reversos. Que,
quantas vezes, são condenados ao lado B da vida.
A fasquia ficou alta. Muito alta, Inês. Ficamos à espera.
TÍTULO – agarrar a faca pelo gume
AUTORA – Inês Bernardo
EDITORA – Tinta-da-china – fevereiro de 2026
PÁGINAS – 112
