José Rodrigues Miguéis: uma visita ao seu livro "Léah e outras histórias"

 


Soube da existência de um escritor, chamado Miguéis, ainda antes do 25 de Abril, através de um familiar meu, que era da oposição ao Estado Novo. Era só assim que ele o designava, pelo sobrenome.

— Comprei mais um livro do Miguéis — dizia-me ele (que era o meu fornecedor de livros) quando eu andava pelos 14 anos.

Nesse tempo, porém, não li nenhum livro de José Rodrigues Miguéis. Não calhou. Mas de Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, Araújo Correia e Guerra Junqueiro, sim, ele emprestou-me vários, sendo que aqueles que mais me fascinaram, ao tempo, tenham sido os do escritor de Oliveira de Azeméis: A Lã e a Neve, Curva da Estrada, Emigrantes e Terra Fria.

Mas voltemos ao José Rodrigues Miguéis, pois é dele que vos quero falar a propósito do livro Léah e outras histórias que adquiri num alfarrabista.

Não, não li todos os contos e novelas que o mesmo encerra. Porém, aquelas que li deliciaram-me e deixaram-me com uma pontinha de arrependimento.

Por que é que eu não tinha lido, antes, este autor? Por que é que eu não tinha lido em tempos idos este e outros livros de Rodrigues Miguéis?

Nascido em Lisboa no início do século XX (1901) e que a partir de meados dos anos 30 se exilou nos Estados Unidos da Américo devido às suas ideias políticas, próximas do Partido Comunista Português, José Rodrigues Miguéis veio a falecer em 1980.

Que delícia. Que suavidade. Que realismo. Que ética nos mais ínfimos pormenores. As suas descrições, com o narrador na primeira pessoa, são encantadoras.

Ora 'ouçam' dois excertos: “Tudo isto mo disseste dum fôlego, num grande esforço de me convencer, abrindo muito os olhos, batendo as narinas, aproximando-te e estendendo para mim os lábios vermelhos, que eu não podia desfitar”; “A cabeça do Mansinho desaparecia nos ombros, engolida de vergonha”.

Estes são meros exemplos, dois excertos ao acaso de alguns dos contos, que nos levam até territórios flamengos, até Bruxelas, onde ele também estudou, ou até Sintra ou Nova Iorque...

Com este livro, Léah e outras histórias, editado pela primeira vez em 1958, que contém contos de ler sem parar, Rodrigues Miguéis ganhou o prémio Camilo Castelo Branco, em 1960, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Escritores.

TÍTULO: Léah e outras histórias

AUTOR: José Rodrigues Miguéis

EDITORA: Círculo de Leitores

PÁGINAS: 264

Recensão de AcácioPinto – março de 2026

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