As peripécias de um PIDE no comício de Ílhavo de apoio a Humberto Delgado
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| Cineteatro Atlântico (Foto: Ílhavo Antigo) |
Nos arquivos da PIDE, sob a epígrafe de Júlio Calisto*,
encontrámos diversos pormenores relativos à campanha presidencial de 1958, que
opôs o contra-almirante Américo Tomás ao general Humberto Delgado.
Quiçá, este foi o tempo mais intenso que a oposição viveu
durante os 48 anos de ditadura. O regime, face à onda de apoio popular que
granjeava Humberto Delgado, viu-se obrigado a tomar medidas de emergência (censura,
prisões e fraudes) para que o seu candidato, Américo Tomás, saísse vitorioso das
eleições que estavam marcadas para o dia 8 de junho.
Mas vamos, concretamente, a algumas peripécias que se
passaram em Ílhavo.
Sob a liderança de Júlio Calisto, o advogado que integrava a
comissão distrital e nacional de apoio ao general, os oposicionistas locais
avançaram para a organização de uma sessão de propaganda no Atlântico
cineteatro no dia 3 de junho, à noite.
Com o auditório completamente cheio, com uma adesão nunca
vista nas iniciativas da oposição em Ílhavo, o presidente da mesa, Manuel das
Neves, chamou os demais membros, só que a mesa ficou coxa, porque um deles, “fingindo que não tinha ouvido”, não
tomou o lugar para que os seus camaradas o tinham indigitado.
Quem foi ele? Foi o “Alegre”,
pseudónimo de um infiltrado no grupo oposicionista de Ílhavo, escriturário na
Fábrica da Vista Alegre, que achou que seria demais ir para a mesa de uma
sessão de propaganda do candidato da oposição.
(Só depois do 25 de abril de 1974 é que os oposicionistas de
Ílhavo vieram a descobrir tal situação, pois ele, para dissimular,
demonstrava-se dos mais ferozes lutadores contra o Estado Novo.)
Dessa sessão, “Alegre”
reportou no dia seguinte à PIDE: intervieram “Dr. Júlio Calisto, professor José Neves, de Águeda, José Gouveia, de
Ílhavo, Dr. Costa e Melo e Dr. Mário Sacramento. Todos os oradores se referiram
ao Governo e ao Senhor Presidente do Conselho em palavras asquerosas e
insultuosas”.
Ou seja, como a missão de “Alegre” era outra, ele fez-se de despercebido para não ir para a
mesa, mas, no final da sessão, ante o convite de Júlio Calisto para integrar um
grupo restrito de pessoas que iriam a sua casa “trocar impressões sobre o momento” político, ele já não se fez de
surdo e aceitou. Escreveu ele no relatório: estiveram presentes o “Dr. Manuel das Neves, esposa e nora, Dr.ª
Eduarda Senos e filhos, José Gouveia, José Ferreira (operário), Manuel Maria
Mónica, Dr. Mário Sacramento e D. Dadinha Guerra”.
E para concluir a jornada desse dia, nada como dar um sinal
inequívoca do seu fervoroso apoio ao regime e a Salazar: “Saímos de casa do Dr. Júlio Calisto pelas 2.30 horas. Deu-me uma porção
de propaganda para eu lançar na rua e levar para a fábrica, o que não fiz,
tendo-a aqui guardada para entregar a V.ª Ex.ª”.
Mais palavras, para quê? Estes, e muitos outros, eram os
métodos da PIDE!
* A vida do Advogado Júlio Calisto (1897-1973) foi a fonte
de inspiração para o romance Um
Republicano na Mira da PIDE, que será lançado em Ílhavo, no dia 3 de julho às 18h00 na Biblioteca Municipal.
Acácio Pinto
