Figueira da Foz: Carla Pais e Maria do Rosário Pedreira na Biblioteca Municipal
Que bela sessão, 5.as de leitura, na Biblioteca
Municipal da Figueira da Foz, no dia 3 de junho!
Com a Carla Pais à sua esquerda e a Maria do Rosário
Pedreira à sua direita, a Teresa Carvalho soube, com a sua singular maestria
nestas lides, distribuir de modo exemplar o jogo pelas convidadas, até mesmo quando
as deixou, às duas, em interação direta!
A primeira, a vencedora do Prémio Leya 2025, com o livro A Sombra das Árvores no Inverno, falou-nos
da emoção com que recebeu a notícia (dada por Manuel Alegre!) de um dos mais
importantes prémios contemporâneos da literatura portuguesa. A sua voz, ainda
um pouco suspensa e emotiva, que a Teresa Carvalho deixou fluir, trouxe-nos as
alterações das suas rotinas (e das do seu gato!), face ao ribombar do telefone,
daquele dia em diante, e às solicitações editoriais que exigiam a sua presença.
As suas palavras não esconderam a aprendizagem que teve de desenvolver (sob a
batuta do Paulo!) para lidar com a notoriedade e com a comunicação social, a de
massas e a especializada, que queriam saber de si. Do seu pensamento. Da sua
vida. Das suas inspirações. Do seu labor.
Sim, falou pausadamente, como quem sopesa cada palavra, como
quem quer traduzir da forma mais fiel o que a narradora ditava à autora. E disse.
Disse do seu livro — escrito numa prosa poética, assim o quis evidenciar a Teresa
Carvalho com a leitura de um pequeno excerto. Falou da geografia que lhe subjaz,
confessando que, embora pudesse ser outra na Europa, tinha a França, Paris, por
base. Falou do tempo narrativo, que é, todos o percebemos, este passado
recente, o agora. Estes tempos de fluxos, de migrações, de famílias do avesso, de
vidas de prosa violenta, de dogmatismos que radicalizam!
Não li o livro, mas creio que, assim o percebi, ele nos traz
o tempo do Charlie Hebdo, das
discotecas que matam jovens em diversão na terra onde foi proibido proibir, dos
Boulevards de ceinture, para
parafrasear o título de um livro do nobel francês, Patrick Modiano. Bem sei, é
um tempo que nos está a tornar (a todos) suspicazes por defeito!
Quanto à Maria do Rosário Pedreira, gostei da confiança do
seu discurso, da assertividade da responsável editorial do grupo Leya, que ela
é. Que lição recebi, recebemos, sobre uma das áreas comerciais que hoje vivem
tempos de grande turbulência. Ou não estivéssemos ante um convívio difícil
entre as editoras convencionais, as que buscam ir mais além e as vanity publisher, que têm proliferado
geometricamente.
Soubemos da sua interação com os autores. Nem sempre fácil.
Nem sempre compreendida. Nem sempre consequente. Ouvimos o exemplo deste livro,
A Sombra das Árvores no Inverno, e percebemos
os pontos de vista dos dois lados da barricada: o da responsável editorial e o
da autora. Neste caso soubemos, na primeira pessoa, das sugestões, dos aspetos
apontados que careciam de um trabalho suplementar. A que a Carla acedeu e que a
Maria do Rosário Pedreira achou que o resultado superou a sua sugestão — quanto
aos nomes e quanto à definição das ligações familiares.
Enfim, foi isto! Uma jornada pelos meandros dos livros, dos
autores e dos editores, que me permitiu conhecer a Carla Pais e aceder à outra
faceta da Maria do Rosário Pedreira. De cujo posicionamento gostei. Porém, continuarei
a guardar a poeta, a vate inspiradora, num patamar superior. A Teresa Carvalho
que já conheço de anteriores sessões, não falhou, não falha uma nota da pauta, nem
sequer os silêncios e os ínfimos tempos das semifusas!
