A Fábrica da Vista Alegre é um dos lugares centrais do novo romance de Acácio Pinto
Como não podia deixar de ser, a Fábrica da Vista Alegre tem uma grande centralidade no romance histórico-biográfico UM REPUBLICANO NA MIRA DA PIDE, ou não fosse o combate ao Estado Novo o pano de fundo de, praticamente, toda a narrativa da obra. Entre outras coisas, tal centralidade advém do facto de a oposição querer recrutar apoiantes entre os operários da fábrica.
Por todas as vias os principais opositores do regime
tentavam trazer para as suas hostes aqueles que diariamente ali laboravam, incentivando-os
a exigirem melhores condições salariais e de trabalho e participarem nos seus
comícios.
À frente da oposição no concelho de Ílhavo, nesse tempo,
estavam, entre outros, Júlio Calisto, Eduarda Senos, José Gouveia e Joaquim
Batista (Escalda). Estes oposicionistas tudo faziam para fazer chegar aos
trabalhadores da fábrica os panfletos da oposição e até os jornais contra o
regime, nomeadamente, o Avante.
A principal porta de entrada para os operários eram, sobretudo,
os escriturários, mas também os desenhadores e alguns operários com ascendente
sobre os seus colegas.
No meio deste ‘jogo’ operava a PIDE que tinha na fábrica vários
informadores, aliciados através do pagamento de míseros honorários. E a sua
missão era clara, vigiar os seus colegas e fazer chegar as informações a quem
lhes pagava. E, nessa sequência, muitos trabalhadores foram presos, nomeadamente
aquando das eleições presidenciais de 1958 (Américo Tomás vs Humberto Delgado).
No romance há, também, inúmeras cenas relacionadas com
momentos importantes vividos na fábrica, como sejam o concerto comemorativo do
centenário da Banda Filarmónica da Fábrica da Vista Alegre, em 1926, ou alguns
espetáculos levados à cena no teatro, ou o transporte gratuito dos operários para
o comício de Américo Tomás, ou a visita de Marcelo Caetano à fábrica em agosto
de 1957, ou a recusa de alguns trabalhadores em receberem as gratificações de
Natal por serem uma miséria…
Eis alguns nomes de alguns dos muitos trabalhadores vigiados,
que encontrámos nas informações da PIDE: João Adamastor Silva, Joaquim Gravato,
Joaquim Lourenço Azevedo, João Carlos Silva, João Carlos Franco, João Cesário
Gonçalo, Antero Catarino, Honorato Rodrigues (Roqui), Francisco Neto, Virgílio
Gravato, Romeu de Almeida, Palmiro Peixe, Mário Estevão de Almeida, Manuel M.
Gonçalves, Mário de Matos, Manuel Rocha, Manuel dos Santos Antunes, Manuel da
Silva Verdade, Luís Sequeira, José Vieira Lopes (José Carvoeiro), José Topete,
José São Marcos, José da Velha Ramalheira, José Pereira, José Ferreira da
Silva, José Franco, José Manuel Parada, José Oliveira da Conceição, Jacinto
Valente, Isidro das Neves Santos, Ilídio Carlos da Silva Moreira, Eduardo
Pires, Fernando Fernandes de Figueiredo, Fernando de Magalhães, Artur da Costa
Ferreira de Almeida, Augusto Serra, Biscaia, Carlos Fragoso, António José
Almeida, Albano Marinho, Alberto Dias Ferreira, Álvaro Cunha…
Esta é apenas uma pequena amostra da presença da Fábrica da
Vista Alegre no romance UM REPUBLICANO NA
MIRA DA PIDE, de Acácio Pinto.
Fundada em 1824, a Fábrica de Porcelana da Vista Alegre é, ainda hoje, uma verdadeira instituição portuguesa. Situada em Ílhavo, engloba um conjunto patrimonial e industrial único, onde poderá visitar para além do Museu, a Oficina de Pintura Manual da Fábrica, a Capela, as Lojas e o Bairro Operário.
