Também em Ílhavo, obviamente, houve fraude eleitoral nas presidenciais de 1958
Assinalam-se hoje, dia 8 de junho, 68 anos sobre as eleições presidenciais de 1958, que opuseram o general Humberto Delgado ao contra-almirante Américo Tomás.
Foram tempos de esperança, em que a oposição, unindo-se em
torno do general, obteve apoios dos mais diversos quadrantes sociais e
políticos. As iniciativas de campanha em todo o país, a começar pelo Porto, no
dia 14 de maio, e por Lisboa, no dia 18 de maio, Viseu, Aveiro e tantas outras,
estavam condenadas ao sucesso. Eram, sempre, milhares e milhares de pessoas que
acorriam aos comícios e às manifestações para aclamar o candidato que, sem
medo, dissera “obviamente demito-o”, dirigindo-se a Salazar.
Perante estas circunstâncias, as campainhas de São Bento
soaram e havia que tomar medidas. A vitória do contra-almirante não poderia
correr riscos.
Instruiu-se a censura para impedir publicações nos jornais
sobre os comícios de Humberto Delgado, ordenou-se à PIDE para prender, a eito, os
oposicionistas e impediu-se a devida fiscalização do ato eleitoral nas secções
de voto.
Ordens eram ordens e havia que as cumprir!
Pois bem, à semelhança dos demais concelhos, também em
Ílhavo a fraude teve lugar. Se não vejamos o que diz uma informação de 9 de
junho, do agente da PIDE AAF (o nome é o que menos importa).
“Ali chegado [a Ílhavo] pelas
9 horas estive no posto da GNR, onde o comandante se ofereceu prontamente para
aquilo que necessário fosse”.
E, de facto, foi, como veremos de seguida.
Após vários telefonemas e diversos contactos, às 13H30 o
agente AAF deslocou-se à secção da Chouza-Velha para cumprir o seu dever cívico.
Refere ele: “quando eu entrava saía o Dr. Álvaro Seiça Neves que, no seu
carro, me pareceu seguir para Aveiro.”
E, nessa mesma nota, logo de seguida, ele escreve que às
14H00, nessa secção, houve alteração da ordem “provocada por elementos da
oposição, entre eles, o Dr. Manuel das Neves” [pai de Álvaro Neves]. E atente-se
bem na causa da alteração à ordem: “Ao que parece isto deu-se pelo motivo de
estes quererem assistir à contagem de votos.”
Ora, ante a recusa pelo presidente da mesa de tão subversiva
pretensão, dizemos nós, os oposicionistas “exigiam uma certidão de recusa, o que também
lhes foi negado”.
Pois claro, era o que faltava, o presidente da mesa
certificar a sua própria recusa!
Disse o PIDE AAF: “Como tentaram provocar distúrbios o presidente da mesa requisitou a
força da autoridade, tendo ali comparecido imediatamente uma força da GNR
comandada pelo respetivo comandante do posto, à qual os manifestantes não
ofereceram resistência, tendo sido imediatamente dispersados.”
Contudo, pelo sim pelo não, “entretanto chegou a Ílhavo um
pelotão do Regimento de Infantaria 10 que não chegou a entrar em ação, visto
que tudo voltara ao normal”, acrescentou ainda.
Já na secção de voto dos Bombeiros Voluntários, onde o
agente também se deslocou e os métodos utilizados pelo presidente da mesa foram
os mesmos, quais eram os oposicionistas presentes?
“Reconheci dois indivíduos da oposição, que ali se encontravam como
fiscais, sendo um o Dr. Júlio Calisto e outro o José Ferreira da Silva,
desenhador cerâmico” na Fábrica da Vista Alegre.
Este exemplo, passado em Ílhavo, um entre muitos outros,
ilustra bem que, “obviamente”, as
presidenciais de 1958 foram fraudulentas.
Nota: Esta e
outras cenas farão parte do meu romance Um Republicano na Mira da PIDE,
inspirado na vida do republicano Júlio Calisto, e que será lançado em Ílhavo,
no início do mês de julho.
Acácio Pinto
Foto: Daqui
