Livro de tributo a José Junqueiro, "Por um Portugal inteiro"

 


Deixo-vos de seguida a minha intervenção de apresentação do livro Por um Portugal inteiro - Tributo a José Junqueiro um livro editado pela Associação Cívica e Cultural José Junqueiro. A apresentação do livro teve lugar no dia 27 de junho no auditório da Universidade Católica de Viseu, no âmbito de uma iniciativa de homenagem a José  Junqueiro, que nos deixou em julho de 2025.

Há pessoas cuja partida não termina a sua presença entre nós.

José Adelmo Gouveia Bordalo Junqueiro foi uma dessas pessoas. É uma dessas pessoas. Partiu de forma abrupta deixando em todos nós, que com ele privámos, um travo amargo e um sentimento difícil de aceitar: o de que ficaram conversas por acabar, memórias por arrumar, histórias por contar e caminhos que ainda gostaríamos de percorrer ao seu lado.

E foi com a firmeza e a forte convicção de que a sua presença não terminou entre nós, contrariando, aliás, aquele célebre verso de Jorge Luís Borges (Somos o esquecimento que seremos), foi com esse propósito que nasceu este livro, POR UM PORTUGAL INTEIRO, que tenho a honra de vos apresentar, em nome da Associação Cívica e Cultural José Junqueiro.

Este livro nasceu, não para traçar a sua biografia, para ser uma análise à sua ação política, mas para ser muito mais do que isso. Para ser muito mais valioso. Para reunir um conjunto de testemunhos humanos. Para ser um mosaico de memórias. Para ser um retrato construído a várias mãos. Com vários olhares. Multifacetado. Não se restringindo apenas aos seus camaradas de percurso. Do Partido Socialista, o seu partido de sempre e onde sempre militou. Não. Reúnem-se aqui vozes de diferentes sensibilidades políticas e dos mais diversos quadrantes socioculturais.

E este facto constitui já, por si só, uma homenagem.

Porque quando uma pessoa consegue merecer o respeito, a consideração e a amizade para lá das fronteiras partidárias, significa que deixou uma marca que ultrapassa as circunstâncias da política e entra no domínio mais exigente da condição humana.

Os depoimentos reunidos neste livro mostram precisamente isso.

Mostram um homem de convicções firmes e simultaneamente aberto ao diálogo.

Um homem empenhado na defesa das suas ideias e capaz de construir pontes.

Um homem que exercia a política como serviço público e que compreendia que a divergência não é incompatível com o respeito mútuo.

Entre os muitos testemunhos presentes nesta obra encontramos, com certeza, as palavras de pessoas que desempenham ou desempenharam funções de enorme relevância nacional e internacional. Porém, uma das maiores riquezas do livro reside, quiçá, precisamente na simbiose e na convivência de todas as vozes, independentemente das funções desempenhadas.

Porque a verdadeira medida de uma vida não se faz apenas pelos cargos que alguém ocupou nem pelos títulos que acumulou.

Faz-se, sobretudo, pela forma como tocou a vida das pessoas.

E é isso que encontramos nestas páginas. Pessoas que foram tocadas pelo José Junqueiro.

Encontramos recordações de amizade.

Encontramos episódios de proximidade.

Encontramos relatos de solidariedade.

Encontramos gestos de atenção que ficaram gravados na memória daqueles que os receberam.

Em suma, encontramos humanidade.

Ao folhear este livro, percebemos, pois, que cada um dos testemunhos oferece uma peça diferente do mesmo retrato.

Uns recordam o político e o dirigente partidário que trilhou o concelho, o distrito e o país em inúmeras campanhas eleitorais. Que nunca se escondeu, sempre deu a cara e nada deixava por dizer na defesa dos seus territórios e das suas gentes.

Outros recordam o seu sportinguismo. Ou a sua entrega e dedicação às causas humanitárias.

Outros recordam o parlamentar e o governante.

Outros ainda recordam o amigo, o conselheiro ou o homem de família.

E é desta soma de olhares que nasce uma imagem mais completa e mais rica da pessoa que foi José Junqueiro.

Naturalmente, esta obra não esgota a sua memória.

Seria impossível fazê-lo. De todo.

As páginas aqui reunidas representam apenas uma parte dos milhares de encontros, amizades, colaborações e relações humanas que construiu ao longo de uma vida preenchida.

Há certamente muitas outras histórias por contar, muitas outras memórias por preservar e muitos outros testemunhos que poderiam integrar este volume.

Mas talvez seja precisamente essa impossibilidade de tudo abarcar que torna este livro tão valioso.

Porque ele não pretende encerrar uma memória.

Pretende mantê-la viva.

Pretende abrir espaço para que cada leitor acrescente a sua própria recordação, a sua própria experiência e a sua própria interpretação do legado de José Junqueiro.

Num certo sentido, este livro é também um convite.

Um convite à gratidão.

Um convite à reflexão sobre a importância daqueles que dedicam uma parte significativa da sua vida ao serviço dos outros.

Ao homenagear José Junqueiro, a Associação Cívica e Cultural, presidida pelo seu filho Raúl Junqueiro, está também a afirmar uma ideia fundamental: as comunidades fortalecem-se quando sabem reconhecer aqueles que contribuíram para o bem comum. Permitam-me aqui também evocar o irmão de José Junqueiro, Raúl Junqueiro, e o seu contributo para o fortalecimento do distrito e do país. Temos por isso a convicção de que este é um tributo, mas outros, mais ou menos institucionais não deixarão, no futuro, de destacar José Junqueiro.

É que a memória coletiva não é um exercício de nostalgia.

É um património.

É uma fonte de inspiração para as gerações presentes e futuras.

E é por isso que livros com este têm um valor que ultrapassa largamente o momento da sua apresentação.

Eles permanecem.

Ficam como testemunho.

Ficam como legado.

Ficam como referência para quem quiser compreender melhor a pessoa homenageada e o tempo em que viveu.

E porque há amigos e pessoas que são assim, que são especiais, que mesmo partindo ficam, ficam aqui, aqui está este livro e esta iniciativa, este evento, que visando isso mesmo, prestar-lhe tributo, nos diz que a sua partida não pôs cobro à sua presença, à presença de José Junqueiro entre nós.

Ele não cabe em nenhum epitáfio. Ele não cabe no passado. Ele é presente. Ele é hoje, é aqui e é agora!

Obrigado JJ pela força, pela garra e pelo exemplo que nos deixaste.

Obrigado a todos vós pela presença.

Acácio Pinto, 27 de junho de 2026

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