Duas notas pitorescas sobre o romance Quando os Lobos Uivam
Foi recentemente lançada, em Barrelas, mais uma reedição do romance Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, obra que contou com o apoio da respetiva autarquia.
É por isso que quero, desde já, saudar o Município de Vila
Nova de Paiva, na pessoa do seu presidente, Paulo Marques, ou não fosse esta
uma obra, um legado de Aquilino ao povo das Terras do Demo. Às gentes serranas,
de rija têmpera, às mulheres e aos homens inteiros e inteiriços. Que não se
vergaram. Que não se vergam. Que lutaram e lutam contra poderes instalados.
É neste contexto que não resisto em falar-vos de dois
episódios com ligações a este romance.
O primeiro remonta aos tempos de estertor da ditadura. Do
Estado Novo.
Li o livro Quando os Lobos
Uivam na minha aldeia. Na Rãs, concelho de Sátão. Estava eu prestes a fazer 15 anos. Li-o por
empréstimo do meu primo Gaspar. Um oposicionista dos quatro costados que me
entregou o livro embrulhado em folhas de jornal. E foi por isso, por esse e
outros empréstimos de livros de autores proscritos, que o meu pai, à época
emigrante em França, recebeu uma carta de Portugal datada de 25 de janeiro de
1974.
E o que é que dizia tal missiva, no que aqui vem ao caso?
“O seu Acácio já está
a seguir a má escola que tem em frente!... etc… etc… Nós compreendemos tudo e
vemos tudo! Mas adiante!... Adiante!... Quem vive com o moleiro ou azeiteiro
tem que apanhar nódoas!... etc… Isto fica só entre nós!”
Obviamente que a carta foi escrita por um situacionista da freguesia,
cujo nome para aqui pouco importa. Por um fiscal das boas e das más leituras. E era daqueles que tinha verdadeiro poder!
O segundo episódio é mais recente. É de agora, de 2026. Embora
remontando a 1959.
No âmbito de pesquisas que efetuei, na Torre do Tombo, para
escrever o romance que será lançado brevemente (3 de julho, às 18h00, na
Biblioteca de Ílhavo), Um Republicano na
Mira da PIDE, inspirado na vida do advogado Júlio Calisto (Sátão, 1897;
Ílhavo, 1973) confrontei-me com uma informação da PIDE que falava deste
romance.
Era um documento escrito por Alegre em junho de 1959. Ele tinha ido a casa de Júlio Calisto para se despedir, uma vez que ia gozar as
férias de verão e o anfitrião deu-lhe um livro.
E quem era Alegre? Era o pseudónimo de um avençado da PIDE que se fazia passar
por oposicionista. Era um agente infiltrado na célula da oposição de Ílhavo e de
Aveiro.
E qual foi o livro da biblioteca de Júlio Calisto que ele
recebeu para leitura de férias? Precisamente o romance Quando os Lobos Uivam.
E qual era o problema, se afinal se tratava de um romance? É
que o livro, que tinha sido publicado em 1958, fora alvo de uma feroz censura
no início de 1959, altura em que já muitos exemplares estavam em circulação, sendo um deles aquele que o infiltrado tinha em mãos. Ora, ante tal
situação, e para que o diabo as não as tecesse, Alegre fez questão de dar nota de
tal acontecimento ao seu chefe da subdelegação de Coimbra, sem referir se o ia
ler ou não!
Eis, pois, os dois episódios. Qualquer um deles, bem
expressivo de um tempo que já lá vai.
Nota: A este
propósito, uma saudação também a José Pacheco Pereira pelo excelente trabalho de recolha de
documentos de tempos idos e pela lição de sabedoria (sem erudições e litanias balofas)
que nos dá todos os dias, como ainda deu em Mangualde, na Biblioteca Municipal,
no dia 19 de junho, onde está patente uma exposição sobre a censura de livros, concebida pelo núcleo de Viseu da Ephémera.
Acácio Pinto
