O Ílhavo que a PIDE vigiava
Há cidades que guardam a sua história nos edifícios, nas praças, nos arquivos e nas fotografias antigas. E há outras histórias que permanecem sobretudo na memória das pessoas que as viveram.
Ao escrever UmRepublicano na Mira da PIDE, percebi que estava, de alguma forma, a entrar
num desses territórios de memória: o Ílhavo das décadas de 40, 50 e 60, quando
a oposição ao Estado Novo tinha rostos, nomes, reuniões, comícios, jornais,
panfletos e, também, uma polícia política atenta a cada movimento.
O advogado JúlioCalisto é a figura central do romance. Nascido no Tojal, concelho de Sátão,
estabeleceu-se em Ílhavo, onde exerceu advocacia e desenvolveu uma intensa
atividade política. Em 1926 presidiu à Comissão Administrativa da Câmara
Municipal de Ílhavo. Mais tarde, já sob o Estado Novo, tornar-se-ia uma das
figuras da oposição democrática na região de Aveiro.
A sua
história política foi feita de combates eleitorais, de iniciativas da oposição,
de amizades e cumplicidades políticas, mas também de vigilância, perseguições e
prisões.
Em 1949,
depois de ter apoiado a candidatura presidencial de Norton de Matos, Júlio
Calisto foi preso para investigação por razões relacionadas com a segurança do
Estado. Anos mais tarde, em dezembro de 1962, seria novamente atingido pela
repressão da PIDE, numa grande operação que levou à prisão vários democratas da
região de Aveiro.
Mas talvez
uma das histórias que melhor permite perceber o ambiente que então se vivia
seja outra.
Em 1959, um
homem que se apresentava como oposicionista e que era, na realidade, um
infiltrado da PIDE, visitou Júlio Calisto na sua casa, na rua Frederico
Cerveira, em Ílhavo. Calisto, julgando estar perante um companheiro de luta,
entregou-lhe um livro para ler durante as férias.
O livro era Quando
os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, então já censurado e perseguido
pelo regime.
O episódio
diz muito sobre o ambiente de desconfiança e vigilância em que viviam os
oposicionistas. A PIDE não precisava apenas de escutar ou prender. Procurava
infiltrar-se, conhecer redes de relações, perceber quem falava com quem, que
livros circulavam, que jornais eram lidos e que ideias chegavam às pessoas.
E havia um
outro espaço fundamental nessa disputa pela influência: a Fábrica da VistaAlegre.
A fábrica,
pela sua dimensão e pela quantidade de trabalhadores que nela laboravam, era
também um espaço onde a oposição procurava fazer chegar as suas mensagens. Os
oposicionistas tentavam sensibilizar os trabalhadores para as suas condições de
trabalho, para os seus direitos e para a participação nas iniciativas políticas
da oposição. Circulavam panfletos e jornais clandestinos, entre eles o Avante,
enquanto a polícia procurava perceber quem distribuía, quem recebia e quem
estava politicamente próximo da oposição.
É também
este mundo que encontramos no romance.
Mas Um
Republicano na Mira da PIDE não nasceu apenas da consulta de arquivos.
Nasceu igualmente das memórias de pessoas que conheceram Júlio Calisto e outras
figuras da oposição ilhavense. Nasceu da leitura de jornais, da consulta de
documentação municipal e de arquivos e da tentativa de cruzar diferentes fontes
para reconstruir, com o máximo rigor possível, uma época e as pessoas que a viveram.
E foi assim
que Ílhavo acabou por se tornar não apenas o cenário de um romance, mas uma das
suas personagens, porque contar a história de Júlio Calisto é também contar a
história de muitos outros democratas e republicanos que, em Ílhavo e na região
de Aveiro, enfrentaram a ditadura.
É contar uma
história de medo, mas também de coragem.
De
vigilância, mas também de resistência.
De silêncio,
mas também de palavras que continuaram a circular.
É, afinal,
recuperar o Ílhavo que a PIDE vigiava — e os homens e mulheres que,
apesar dessa vigilância, nunca deixaram de acreditar que um dia a liberdade
haveria de chegar.
É essa
memória que procurei preservar em Um Republicano na Mira da PIDE.
Foto: Recrtado da 1ª página de O Ilhavense, edição de 19690101, a propósito da inauguração da estátua de D. Manuel Trindade Salgueiro.
