Narsélio de Gouveia e Sousa, um construtor de consensos
Por ocasião da morte de Narsélio de Gouveia e Sousa (N. 15.09.1947 | F. 01.08.2026) impõe-se deixar-vos breves palavras sobre aquele que foi o presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Sátão após a Revolução de Abril de 1974.
E deixo-as com enorme tristeza, porquanto ainda esperava
ouvir da sua boca, no café Cantinho da Amizade, em Sátão, outras histórias dentre tantas que me contou aquando da
recolha de elementos que efetuei para a escrita do livro Sátão: 50 Anos de Liberdade. Claro está que alguns conteúdos dessas conversas ficaram e
ficarão selados, pela sensibilidade que os envolve, assim me comprometi com ele.
Vamos então aos factos.
Após meio ano de manifestações e de negociações que
redundaram num processo conturbado e nada linear, eis que Narsélio de Gouveia e
Sousa se vê empossado, no dia 5 de dezembro de 1974, pelo governador civil de
Viseu, Manuel Almeida, como presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal
de Sátão. Ele e os seus pares: Eduardo Alberto Rosas Nobre, Luís Manuel
Magalhães Cabral, José Carlos de Sousa Henriques e Manuel de Oliveira Granja.
A vida política corria agitada por essa altura, sobretudo nos areópagos dos principais centros urbanos. Mas, também
no Sátão, a conflitualidade entre os novos detentores e intérpretes do poder e os que haviam
sido depostos era evidente: entre os que queriam uma revolução mais intensa, os que pugnavam por uma transição mais pacífica e os que almejavam um regresso ao passado.
Foi neste contexto que o presidente Narsélio, aos 27 anos,
se viu a ter que gerir um município tendo por base todas estas controvérsias, que sempre
envolvem os tempos revolucionários e de grandes mudanças.
Foi, pois, com estas circunstâncias que ele capitaneou até 3
de janeiro de 1977 um navio por entre um mar encapelado. Foram as nomeações das
comissões administrativas das freguesias, a “tomada de assalto” da câmara (de que ele fala no livro supra referido), as
demissões de elementos do seu ‘executivo’ e foi a gestão dos impulsos de muitos
satenses, de ambos os lados da barricada.
E qual é a imagem que eu guardo (guardarei) do Narsélio
de Gouveia e Sousa? Eu que li todas as atas desse período conturbado, que falei
com muitas pessoas dessa época, que falei com os seus pares e que muito conversei
com ele?
Pois bem, guardo a imagem de um homem íntegro e honesto na gestão da res publica. Um autarca de princípios e de valores democráticos. Um cidadão
que se distanciou da vida política por opção, nunca mais integrando qualquer lista
político-partidária. Afinal, de um construtor e gestor de consensos que, na
reunião derradeira do seu curto mas intenso mandato, fez aprovar uma moção a
agradecer (a quem?) aos satenses, aos seus conterrâneos: “no términus do seu
exercício, deseja este elenco camarário expressar a todos os munícipes, a compreensão,
a ajuda mútua e o acolhimento que em geral sempre lhes deram no decurso do seu
mandato.”
Obrigado Narsélio pelo trabalho difícil, mas muito honroso e de primeira água, que
desempenhaste em prol do concelho de Sátão e dos satenses nesse período de
transição da ditadura para a democracia.
Abraço solidário a toda a família, particularmente à minha
colega, professora Aida Silva, aos filhos e aos netos.
Acácio Pinto, 2026.08.03
