Foi bom este regresso a Ferreira de Castro, com "A Tempestade"
Regressei a Ferreira de Castro, cinco décadas depois. Desta
feita ao romance A Tempestade, publicado
em 1940.
E que bom foi este regresso! E que saudades eu tinha desse
fabuloso escritor de Oliveira de Azeméis, que Óscar Lopes considerou o primeiro
grande romancista português do século XX!
Dele, na minha juventude, li tudo o que podia (que me emprestou o meu primo Gaspar) mas não esta
narrativa bem marcada no tempo. Num tempo em que o homem e a mulher
tinham papéis bem distintos. Ele de chefe de família e ela de dona de casa. De
doméstica. Domesticada!
Trata-se de um romance psicológico cuja trama se desenrola
num ambiente urbano, em Lisboa, num único dia. Tudo o mais, do passado da
personagem principal, nos chega através das suas memórias. Das memórias de
Albano, um funcionário bancário, mediano, viúvo, ensimesmado e fortemente
marcado pelas idiossincrasias socioculturais da época, que no-las vai revelando
aos poucos.
Este livro revela a outra dimensão de Ferreira de Castro,
de saltar dos romances com paisagens e espaços abertos e largos, de narrativas
temporalmente mais longas, para esta, de espaço familiar e de um tempo curto.
Em tudo, porém, lá está a maestria da escrita, o rigor discursivo, o aprisionamento que ele provoca aos
leitores (pelo menos a mim!) com o desvelar gradual e quanto baste, em cada momento,
das cenas que arquitetou e com que nos vais surpreendendo.
Por lá estão os dramas de segundos casamentos em contextos
de espartilhos morais violentos para a mulher, a difícil relação da madrasta
com a filha, os ciúmes, a infidelidade e as conversas de escárnio de colegas (sobretudo
imaginadas pelo protagonista).
Mais não digo, a não ser que nestes dias de leitura de A Tempestade recuei até aos anos 70, quando tive tantos dias de encantamento com a leitura de Terra Fria, A Lã e a Neve, Emigrantes,
A Curva da Estrada.
Sim, se tiver de referir um autor (quiçá o autor) que muito
me influenciou e mais me marcou nos meus imaginários narrativos trata-se, sem
sombra de dúvida, de Ferreira de Castro que, tendo nascido em 1898 e sido alvo de
censura pela ditadura, morreu no dealbar da liberdade, a 29 de junho de 1974.
TÍTULO: A Tempestade
AUTOR: Ferreira de Castro
EDIÇÃO: Guimarães e C.ª – Editores (1949)
PÁGINAS: 310
Recensão: Acácio Pinto (Agosto de 2026)
