Ílhavo | Da origem do nome da avenida Mário Sacramento

 


A avenida Mário Sacramento, em Ílhavo, é um dos seus arruamentos mais importantes, logo depois dos estruturantes eixos norte-sul (EN 109) e este-oeste (avenida 25 de Abril) que se cruzam na rotunda do centro da cidade.

Tendo nos seus extremos o jardim Henriqueta Maia, a nascente, e a bifurcação que dá para a rua da Malhada, a poente, a decisão de atribuir a este arruamento o nome do médico, resistente antifascista, escritor e ensaísta de Ílhavo, remonta aos primeiros tempos da Revolução dos Cravos.

Vamos por partes, mas cingindo-nos apenas às atas da câmara.

Na reunião de 17 de maio de 1974 o executivo municipal, que ainda se mantinha em funções, apesar da revolução (Luís Bettencourt Viana, presidente; Humberto Rocha, vice-presidente; Manuel Ferreira da Silva, José Cândido Ferreira Jorge, Mário de Jesus Campolargo e Luís Pedro Conceição, vereadores), apreciou uma carta de Senos da Fonseca, em que era solicitada a mudança de nome de algumas ruas da vila.

E quais eram as mudanças que aquele oposicionista ilhavense pretendia?

Pois bem, era a substituição de nomes de pessoas ligadas e comprometidas com o Estado Novo por ilhavenses que, nesse mesmo período, combateram tal regime. Igualmente queria deixar uma marca dos novos tempos, que assinalassem a revolução.

No topo dos nomes, Senos da Fonseca colocou o de Mário Sacramento (N. 07.07.1920 | F. 27.03.1969), “ilhavense que é todo o nosso orgulho nesta hora de liberdade e lutador infatigável contra o fascismo”. E, relativamente a este, as suas sugestões eram duas. Que o seu nome fosse atribuído ao “largo do Outão” que passaria a “praça Mário Sacramento” e, para além disso, sugeria a colocação de uma placa na casa onde o médico tinha nascido a assinalar tal efeméride.

O outro nome que se seguia era o de Guilhermino Ramalheira (N. 22.10.1898 | F. 09.05.1970). Para este ílhavo, “professor e democrata”, Senos da Fonseca propunha que o seu nome fosse dado “à artéria que conduz ao novo Museu de Ílhavo”.

Finalmente, para justificar que não estava “em causa apenas o ideário político”, sugeria que o nome de Diniz Gomes fosse atribuído a uma avenida, apesar dos seus “princípios políticos [serem] diferentes do ideário democrata”. Ele propunha que o nome deste ex-presidente da câmara substituísse o nome de Carmona, na respetiva avenida, uma vez que aquele arruamento era uma “obra de larga e rasgada visão que se ficou a dever a este ilhavense”. Ou seja, Senhos da Fonseca propunha o nome deste ex-presidente para aquela que haveria de vir a ser a avenida Mário Sacramento.

Está claro que as sugestões, deste impetuoso mas generoso (expressões nossas) democrata de Ílhavo, não poderiam ficar por aqui. Avançou com a proposta de alteração da avenida Salazar, “o mentor e iniciador do vergonhoso período fascista”, para avenida 25 de Abril, “em reconhecimento da mensagem de liberdade que as Forças Armadas nos ofereceram”.

Depois de analisarem o seu pedido, os autarcas deliberaram o seguinte: “por virtude do facto de haver anteriores pedidos para nomes de ruas, foi deliberado, por unanimidade, voltar este assunto à próxima reunião”.

A reunião seguinte e última daquele executivo, dissolvido pelo Decreto-Lei 236/74, realizou-se a 7 de junho, mas o tema não esteve em debate, ao contrário do deliberado.

Tivemos de compulsar as atas seguintes, uma a uma, até que na reunião de 30 de janeiro de 1975, o nome de Mário Sacramento foi aprovado para constar na toponímia ilhavense, já com a comissão administrativa em funções. A proposta foi do presidente, Nelson Fontes Ribeiro, nos termos seguintes: “com a finalidade não só de se fazer o saneamento de determinados nomes de ruas e avenidas da vila, mas também para homenagear aqueles que desde longa data e durante a vida foram defensores da democracia em Portugal, foi deliberado, por maioria, passar-se a denominar “avenida Mário Sacramento” a antiga “avenida Marechal Carmona””.

A proposta do presidente foi votada a favor pelos vereadores Dinis Sotto Mayor e Armando Abrantes Gouveia, tendo faltado à reunião Manuel Hernâni Crespo Dias.

O vereador vencido foi Domingos Custódio Amador que era de “opinião de que a referida avenida deveria passar a denominar-se “avenida do Mar”, invocando o argumento de que era por aquela avenida que os ilhavenses passavam quando se dirigiam para o mar”.

Portanto, Mário Sacramento ganhou foros de nome toponímico em Ílhavo — avenida Mário Sacramento — na reunião de câmara de 30 de janeiro de 1975.

Quem não deixou passar o assunto em branco foi o jornal O Ilhavense ao referir, na sua edição de 10 de fevereiro, na 1.ª página, sob o título “Finalmente Mário Sacramento – a homenagem na rua”, que “finalmente, fez-se justiça!”.

Acácio Pinto, agosto de 2026

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