Em homenagem de Joaquim Sarmento
Em homenagem ao meu amigo e camarada Joaquim Sarmento, de Lamego, que faleceu no dia 8 de Agosto, aos 74 anos, publico hoje este texto que escrevi para a apresentação do seu romance O CRIME DO CEREJEIRO.
A apresentação foi efetuada no dia 16 de maio de 2008 no Auditório Municipal de Resende.
Joaquim Sarmento foi advogado, autarca, deputado à AR e um escritor que transportava para as suas obras a sua vasta cultura e uma boa dose de ironia.
Guardar-te-ei com enorme saudade! Abraço solidário à família!
Eis o texto da apresentação do livro:
Convidou-me o meu amigo Joaquim Sarmento para apresentar o seu último livro, um romance, O Crime de Cerejeiro.
Aceitei. E porque aceitei aqui estou
hoje. Mas aqui estou hoje com um temor. Temor, esse, que, confesso-vos, tem a
ver com dois motivos.
Primeiro: nunca antes me aventurei
nestas lides e portanto estou aqui como aquele que tem fundados receios de
falhar, de não corresponder, desde logo ao mérito da obra, ao mérito do autor e
podendo, assim, defraudar as expectativas de todos aqueles que hoje aqui estão.
Segundo: decidi não vos falar de um
livro, deste livro, mas de pessoas. De pessoas do mundo. Deste mundo. Pessoas
reais. Que choram. Que riem. Que amam. Que trabalham. Muito. Que acariciam. Que
são oprimidas. Que rezam. Que morrem. Pessoas pois. Muitas pessoas.
Já perceberam, então, o meu temor e
daí que peça, portanto, antecipadamente, desculpa a todos, mas, precipuamente,
ao seu autor e meu convidante, Joaquim Sarmento.
Não vou, então, efectuar uma análise
da narrativa. Não vos vou falar da história: dos personagens, da acção, do
espaço. Não. Não vos vou falar de nada disso. Nem disso nem do discurso: do
narrador, do tempo, da focalização.
Não. De nada disso vos vou falar.
Isso era discurso para os
especialistas da literatura. Para os teorizadores da literatura. Para os
académicos.
Desculpem, mas a mim hoje, aqui e
agora não me interessam as analepses, as metalepses, ou se o narrador é
heterodiegético ou homodiegético.
Perdoem-me, portanto, se vieram ao
engano. Se vieram para ouvir e escutar uma análise daquelas que são enquadradas
pelos cânones. Daquelas que se detêm na forma. Na arquitectura da matriz.
Não, nada disso.
Eu venho falar-vos, como vos disse, de
pessoas. De muitos homens. Ou só de um homem, talvez. De muitas mulheres. Ou só
de uma, porque não.
Eu venho falar-vos de um homem criado
pelo autor. Com certeza, criado pelo autor. Detalhado pelo narrador. Sem
dúvida. De um homem culto. De pensamento livre. De um homem duriense. De gema.
De um amante da liberdade e da felicidade. (Que nem sempre encontra). De um
homem que vagueia que busca. Que perscruta. Que questiona. Que se relaciona.
Que ama. Que arde de paixão.
Em Paris. Muito em Paris. No Louvre.
No Museu d’Orsay. Nessa cidade eterna. (Tua cidade eterna?). De um homem que
sorveu e amou nessa cidade de ontem e de hoje. De sempre.
“Fizeram o trajecto que vai da
praça de Vendôme a Orsay a pé e aos beijos. Não se coibiram mesmo de exibir,
como se de uma sessão de autógrafos se tratasse, um prolongado beijo na boca,
numa das passadeiras (...) provocando a ira de alguns automobilistas e as
palmas de um numeroso grupo de jovens (...)” (pág. 28).
De um homem que pisou as ruelas de
Mont Martre (não citadas) mas que se percebem. As ruelas dos pintores
vagabundos, navegantes, de que ele tanto gosta. Os espaços dos criadores da cor
do som. Do gemido. Que andou nos territórios da cor dos suores famintos
exalados nas alcovas apertadas. Nos inventores do timbre das paixões cegas. E
de ciúmes: “gostava (...) de provocar o parceiro, para poder sentir ciúmes.
Não por masoquismo, mas por saber que à tempestade verbal desse entorse do
amor, se seguiriam as delícias do leito da volúpia que evaporava todos os
ciúmes” (pág. 26).
Falo-vos de um homem. De homens vários
De um homem que se perpetua a ouvir Brahm, Bach, Mozart, Wagner, Verdi. Que se
transcende com Renoir, com Rembrandt.
De um homem peregrino. De um homem que
lê o silêncio no Rijksmuseum. Nessa Amesterdão submersa. E por que não no Vang
Gogh museum? Que distingue os negros da Ronda da Noite. Que distribui o pão em
Emaús. Em qualquer Jerusalém deste mundo. Seja Veneza. Seja em Penajóia. Ou no
Cerejeiro que cada um quiser inventar. No Cerejeiro de um autor-mundo. De um conhecedor
profundo da alma. Do querer. Da angústia. Do mel. Seja na Régua ou no Peso. No
peso de uma sociedade estratificada. Uma sociedade amordaçante. Tantos anos
amordaçante. Agrilhoada. Em Balsemão. Em Viseu. No Lamego que cada um for capaz
de questionar.
Falo-vos de um homem que também nada
nos diz do Quatier Latin, em Paris. Mas que está lá, está. Esteve lá. Nas suas
livrarias.
(E como te vejo naquelas Livrarias
especializadas em literatura, poesia, filosofia, política!...).
Que muito nos diz de Maio de 68. Que
tanto nos fala dos alfarrabistas do sonho. Dos construtores de enlaces
pretéritos. De pretéritos perfeitos em colisão. De corpos desenhados pela pena
fina humedecida em sémen de imaginação. De filhos concebidos sob o trinar
trinado de um violino em êxtase. De um violino proibido pelo poder instituído.
Proibido pelos Limas d’outrora. Pelos climas turvos de uniões nacionais. Pelas
turbulências de uma revolta latente alimentada de fome. De um conúbio
político-religioso. Copular. Magno. De Monsenhores efémeros e deputados
mentecaptos. De ontem. Digamos de ontem.
Falo-vos de um homem. Muitos homens.
De um ser imperfeito. De um boémio. Também. Tantas vezes um boémio. Em dádivas
de loucura nessa Lisboa de todos os lazeres. Do Cais do Sodré. Dos bairros. Do Alto,
Mouraria ou Alfama. Da Lisboa de golpes palacianos e de conspirações. Das lutas
pelo poder e do poder. Do de ontem. Anquilosado. Putrefacto. Mas também da
Lisboa da revolução. Da Lisboa das marchas populares. De Campolide. Da Lisboa
do fado. Da fadista. Só ela. Amália, com certeza.
(Nunca me perdoarias se não te
trouxesse aqui e agora Amália! Eu bem sei. Mas prometes que guardas a lágrima
que verteste outrora. As lágrimas que lhe dedicaste, não são hoje para aqui
chamadas!)
Falo-vos de um homem. De um amante de
Florença. Da Toscânia, pois. De um solitário em Roma. Depois da morte. Da morte
da amada, amante. De cartas. Cartas. Confissões intermediadas pela palavra
escrita. Dos ciúmes perdoados. Das rotas desencontradas por caminhos de estudos
literários. Do amor e ciúme feito escrita. Tornados realidade. Em bares
sorvidos e bebidos com música rouca. Em roteiros de pele sedenta e sedosa.
Nessa incursão renascentista. Aos Bórgia: César, (o Príncipe de Maquiavel) e Lucrécia.
À corrupção sexual dos papados desse tempo e desse espaço.
De um homem só, solitário, com a filha
na Fonte de Trevi. Perdido. Perdido e logo reencontrado no perdão. Na
compreensão da traição primeira e última. Antes daquele acidente. Antes da
morte. Falo-vos de um homem que diz: “Amo-te, Agripina, amo os teus pecados,
amo o halo desesperado das tuas noites de cópula desregrada, amo-te ainda mais
na ausência que é agora eterna.” (pág. 213/214).
Já vistes pois. Não vos falo de
nenhuma narrativa. Ou também? De nenhum livro. Ou também? Muito menos de um
crime. De nenhum crime. De Cerejeiro, por exemplo. Não quero saber de tiros. De
casas incendiadas. De beatas loucas. De uma sociedade enlouquecida e alienada.
Culturalmente alienada. Não. Não vos falo de nada disso. Mas também.
Falo-vos de um homem. De homens que se
não vergam a um poder decrépito e apodrecido. A um poder em fim de linha. A um
poder sustentado na bufaria e no medo. E que diz: “há pessoas ditas
instruídas e até membros da Igreja que se deixam seduzir por essas ideias
maçónicas que põem em causa a nossa civilização cristã. (pág. 39).
Falo-vos de um homem. De muitos
homens. Seja Luís. Rodrigo. (Porque não Joaquim, um pouco, ou muito?). De um
artista do verbo. De um artífice da palavra. De um intérprete do tempo. De um
leitor de auroras. De um carrasco do conformismo. De um sonhador de um mundo
novo. De um Douro mágico por si inventado: “o deslumbre da tua presença
redobrou de magia este rio (...) (pág. 270).
Ah! Mas falo-vos também de uma mulher.
De uma mulher culta. Sensível. Incompreendida no amor. Sem homem amante.
Adivinhador de quereres. De amores soltos de amarras. De transgressões. Sem um
homem leitor de silêncios. ‘Percebedor’ de respirações pausadas. De sussurros.
De silvos labiais.
Falo-vos de uma mulher. De uma deusa
em terras do nunca. Em terras semeadas de medo. Em terras trabalhadas até ao
por do sol. Em terras de xisto amassado por suores de sangue e lágrimas.
Negras. De uma mulher que compreende as lágrimas negras e as noites de fome
eterna. Que perdoa. (Será que alguma vez perdoará às outras mulheres?). Que a
apedrejam na praça pública. Que a invejam. Que a odeiam: “Sou, pois, uma
mulher sujeita ao ódio e ressentimento de bestas à solta que não perdoam o ser
(...) detentora de alguma educação e cultura.” (pág. 75)
Falo-vos pois de uma mulher. De uma
amante da arte. Da pintura de Delacroix e do seu Cristo, de Caravaggio, El
Greco, Roualt... (pág. 162). Amante de sons silenciosos que atravessam as
noites repetidas. Do som de um violino que fecunda uma mente ávida de
embriaguez: “A madrugada não estava longe e eis que um som de violino se
aproxima na execução plangente duma canção já tão conhecida (...) mas nem por
isso menos inebriante e comovente” (pág. 57).
Falo-vos de uma mulher. De letras doces
feitas palavras flamejantes. Textos de lava bem púrpura. Da cor daquele xaile
no Casino. Daquela corte trazida de novo à mente em acordes de Strauss.
Ritmados pelo Douro prateado. Pelo odor de terra molhada com chuva de verão.
Corpo brasido por tantas securas. Altar fecundado pela Primavera (de
Botticelli) depois de um Inverno fustigante. De tantos invernos sem amor.
Falo-vos também de outras mulheres. De
mulheres oprimidas. Secas. Em que a mamada dos filhos brota de uma côdea
molhada em vinho. Em água-pé. Com sardinha ardida: “Recebiam um ordenado abaixo do limite da sobrevivência, acompanhado
duma côdea de pão e duma sardinha” (pág. 37).
Falo-vos de mulheres sem voz.
Censuradas. Manietadas. Procriadoras. Mas também das mulheres dos deuses
maiores do poder factício. Mas de mulheres escondidas de si próprias.
Reprimidas. De mulheres escravas de uma escravidão perpetuada. De serventes de
um destino barrado.
Falo-vos de uma mulher que desafia.
Que se superioriza ao poder local. Que não tem medo dos tribunais. Que nunca
perde o norte. Mas que desfalece sem nunca perder a verticalidade. Até no
silêncio a que se impôs. Até no desterro a que se votou. De uma mulher que se
refugia, se inspira e reclama protecção do Cristo da “Agonia no Jardim de Getsémani”, onde “a figura de Cristo
aparece solitária, numa posição de angústia metafísica, de abandono total, sem
força senão para estender o braço esquerdo, com a mão aberta, na busca de um
bálsamo de consolação (...) (pág. 112).
De uma mulher. De uma mulher que passou
ao lado do amor. De um amor único e eterno. Seu. Até à morte. De um amor
solitário. Só. De uma paixão entregue aos poucos. Vivida tão poucas vezes.
Mas também de uma mulher amada. Muito
amada. Apaixonadamente. Até à morte. Até ao fim físico. Até ao fim.
“A minha vida esvai-se e escorre,
sem remorso, à terra mãe, no cumprimento do destino absurdo do ser humano.
(...) Enleio-te, para sempre, nos meus braços (...). Até ao limite dos limites!
Oxalá eu possa ser, teu limite na eternidade...” (pág. 310 e 311).
Joaquim Sarmento: Deixa-me parafrasear
o poeta, Torga, e dizer-te que não há chegadas, não há portos de abrigo. Há,
isso sim, partidas, cais de partida.
Aguardo, ficamos a aguardar, pois, uma
nova chegada, porque tenho a certeza que já voltaste a partir...
Obrigado.
Acácio Pinto
Obra: O CRIME DE CEREJEIRO
Autor: Joaquim Sarmento
Editora: Papiro Editora
Ano de edição: 2008
