Júlio Calisto regressa a Sátão: um romance, uma terra e uma história por descobrir

 


Há livros que nos levam a lugares distantes. Outros fazem-nos regressar às nossas origens, às nossas terras e às histórias que nelas ficaram por contar.

É também isso que acontece com Um Republicano na Mira da PIDE, o meu romance histórico-biográfico, que chega agora a Sátão, o concelho onde nasceu, em 1897, a figura que inspirou esta narrativa: Júlio Calisto.

A apresentação terá lugar no próximo dia 18 de outubro, domingo, pelas 15h30, na Biblioteca Municipal de Sátão, numa sessão que representa, para mim, um momento particularmente significativo no percurso deste livro.

Júlio Calisto nasceu no Tojal, freguesia de Vila de Igreja, no final do século XIX. Filho de uma costureira e de um tabelião de Ílhavo, que se encontrava colocado em Sátão, teve uma origem e um começo de vida que ajudam a compreender a personagem.

É precisamente em Sátão, no dealbar do século XX, que se desenrolam algumas das primeiras cenas do romance. E é aqui que a narrativa nos aproxima das circunstâncias do seu nascimento, da sua mãe e do ambiente social em que tudo começa. São páginas que devolvem à terra natal de Júlio Calisto um lugar próprio na história que o livro conta.

Mais tarde, a vida leva-o para Coimbra e, depois, para outros lugares onde se afirmará o seu percurso profissional, cívico e político. É sobretudo na região de Aveiro, em particular em Ílhavo, que encontramos o advogado, o republicano e o opositor ao Estado Novo e à ditadura, cuja história constitui o coração deste romance.

Mas Sátão está sempre latente na narrativa.

Há um momento em que Júlio Calisto regressa simbolicamente às suas raízes, num episódio que o leva às Caldas da Cavaca e a um jantar em Lamas, Ferreira de Aves, onde se encontra com Aquilino Ribeiro e o núcleo oposicionista local liderado por Luís Figueiredo, advogado e que fora colega de Júlio na Universidade de Coimbra. A história local e a história nacional cruzam-se, assim, através de personagens, encontros e convicções que ajudam a compreender uma época e aqueles que nela viveram.

Um Republicano na Mira da PIDE percorre décadas de história portuguesa, acompanhando homens e mulheres que enfrentaram a ditadura e que, apesar da vigilância, das perseguições e das dificuldades, continuaram a lutar pela liberdade e pela democracia.

Neste romance, porém, não se trata de contar apenas a história de um homem. É também uma tentativa de recuperar a memória de uma geração e de compreender as escolhas, os ideais, os medos e a coragem de quem não se conformou com a ausência de liberdade. Com o regime de Salazar.

Quando comecei a trabalhar nesta obra, quis dar forma literária à vida de Júlio Calisto e às circunstâncias históricas em que ela decorreu. Ao longo da investigação e da escrita, fui percebendo como a sua trajetória ligava diferentes geografias e comunidades: Sátão, onde nasceu; Coimbra, onde estudou; e Ílhavo e Aveiro, onde desenvolveu uma parte fundamental da sua intervenção cívica e política.

Agora, ao trazer o romance a Sátão, sinto que esse percurso ganha um significado especial.

Júlio Calisto não será, porventura, um nome familiar para muitos dos habitantes do concelho. É precisamente por isso que considero importante contar a sua história. Porque também as terras se constroem através da memória das pessoas que nelas nasceram, das suas vidas, das suas escolhas e da marca que deixaram, mesmo quando essa marca parece ter-se apagado com o passar do tempo.

A literatura não substitui a investigação histórica, nem pretende transformar um romance num documento biográfico. Mas pode abrir portas, despertar curiosidade, aproximar leitores de figuras esquecidas e convidá-los a olhar de outra maneira para os lugares que conhecem.

É esse o sentido que atribuo à apresentação de Um Republicano na Mira da PIDE em Sátão: regressar, através da literatura, ao lugar onde tudo começou e partilhar com os leitores uma história que liga a memória local a uma das páginas mais marcantes da história contemporânea portuguesa.

No dia 18 de outubro, Júlio Calisto regressa literariamente à terra onde nasceu.

Espero encontrar-vos na Biblioteca Municipal de Sátão, pelas 15h30, para conversarmos sobre o livro, sobre a sua personagem central e sobre as histórias que ainda temos para descobrir acerca das nossas terras e da nossa História.

Há memórias que merecem ser recuperadas e há histórias que, uma vez contadas, voltam a fazer parte de nós.

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