Lisboa: um lugar que parece escolhido pelo próprio romance
Há apresentações de livros. E há apresentações que, pela história, pelo lugar e pelas pessoas que nelas participam, parecem ganhar uma dimensão que ultrapassa o próprio livro.
É o que
sinto em relação à apresentação de Um Republicano na Mira da PIDE em
Lisboa.
Depois de
Ílhavo, onde o romance foi apresentado no passado dia 3 de julho, a obra chega
agora à capital. Será no próximo dia 8 de outubro, às 18h30, na Fundação
Mário Soares e Maria Barroso, em Lisboa, na Rua de São Bento, 160.
E
dificilmente poderia imaginar um lugar mais adequado para apresentar este romance.
Um
Republicano na Mira da PIDE é um romance histórico-biográfico inspirado na vida de Júlio Calisto,
advogado, republicano e opositor da ditadura e do Estado Novo, nascido no
concelho de Sátão e falecido em Ílhavo, em 1973.
A sua vida
cruza-se com algumas das páginas mais difíceis da história portuguesa do século
XX: a ditadura, a repressão política, a vigilância da PIDE, as campanhas
eleitorais da oposição, as prisões e a resistência daqueles que, durante
décadas, recusaram aceitar que a liberdade fosse um bem adiado.
E Mário
Soares está também, naturalmente, presente no livro.
Há
referências a Mário Soares ao longo da narrativa e há um episódio
particularmente significativo de março de 1968: um telegrama subscrito, em Viseu, por Júlio
Calisto e outros democratas, dirigido a Salazar, exigindo a libertação de Mário
Soares, então deportado em São Tomé e Príncipe sem culpa formada e sem julgamento.
É, por isso,
particularmente simbólico que este romance seja agora apresentado na Fundação
Mário Soares e Maria Barroso, uma instituição que tem precisamente entre os
seus objetivos a preservação e divulgação da memória da liberdade e da
democracia em Portugal.
Mas a
simbologia não fica por aqui.
A
apresentação da obra estará a cargo de João Barroso Soares, filho de
Mário Soares e de Maria Barroso e figura ligada à Fundação. A sua participação
acrescenta à sessão uma dimensão humana e histórica muito especial: alguém que
conhece, por proximidade familiar e pelo seu próprio percurso contra a
ditadura, uma parte da história que o romance procura também revisitar.
E há ainda
outro detalhe que não consigo deixar de assinalar.
A Fundação
situa-se na Rua de São Bento, a escassos metros da Assembleia da República.
No mesmo espaço urbano, onde hoje funciona a instituição parlamentar
democrática, existiu, durante o Estado Novo, a Assembleia Nacional.
É impossível
não pensar no contraste.
Júlio
Calisto e os democratas da sua geração viveram num país em que a representação
política estava submetida a um regime autoritário. Muitos combateram-no durante
décadas. Alguns foram presos, perseguidos, deportados ou impedidos de exercer
livremente os seus direitos. Outros pagaram com a própria vida.
É essa
memória que Um Republicano na Mira da PIDE procura recuperar.
Não para
substituir a História pela literatura, mas para, através da literatura,
aproximar o leitor de homens e mulheres concretos, das suas escolhas, dos seus
medos, das suas convicções e da coragem necessária para resistir.
Depois de
Ílhavo, onde Júlio Calisto viveu, trabalhou e desenvolveu grande parte do seu
combate político, é particularmente significativo levar este livro a Lisboa.
E fazê-lo na
Fundação Mário Soares e Maria Barroso, tendo João Barroso Soares como
apresentador, dá a esta sessão uma carga simbólica que dificilmente poderia ser
maior.
8 de
outubro. 18h30. Lisboa.
Um livro
sobre um republicano que nunca deixou de procurar a liberdade.
Um lugar
dedicado à memória dessa liberdade.
E uma
história que, mais de meio século depois, continua a merecer ser contada.
Acácio Pinto
