Hotel Avenida, em Viseu: quando a História entra na literatura
Há lugares que guardam histórias. Lugares onde, por vezes, a História se fez diante de uma varanda, numa praça cheia de gente, numa palavra dita em voz alta quando falar livremente ainda era um ato de uma enorme coragem.
O Hotel Avenida, em Viseu, é um desses lugares.
Foi da sua varanda que Humberto Delgado falou ao povo de Viseu. Num país submetido à ditadura, a sua candidatura presidencial representou, para muitos portugueses, uma esperança de mudança e uma oportunidade de manifestar publicamente a vontade de liberdade.
É por isso que regressar agora ao Hotel Avenida com o meu romance, Um Republicano na Mira da PIDE, tem para mim um significado que vai muito além da escolha de um espaço para apresentar um livro.
No próximo dia 31 de outubro, às 17h00, ali estarei para partilhar com os leitores a história de Júlio Calisto, a figura que inspirou este romance histórico-biográfico. A apresentação estará a cargo de João Ferreira da Cruz e contará com a presença do presidente da Câmara Municipal de Viseu, João Azevedo.
Há, aliás, uma curiosidade que torna este encontro ainda mais especial: o Hotel Avenida não está apenas ligado à memória política de Viseu. Também faz parte da história que conto no romance. Em março de 1968, uma cena da narrativa decorre precisamente naquele hotel.
A literatura tem esta capacidade de aproximar tempos diferentes. Um lugar que testemunhou acontecimentos reais pode voltar a ganhar vida através das personagens de um romance. E uma personagem, mesmo quando pouco conhecida, pode ajudar-nos a olhar de outra maneira para os espaços por onde passou e para o tempo em que viveu.
Júlio Calisto foi um republicano e opositor ao Estado Novo e a sua vida permite acompanhar uma parte da história daqueles que, em tempos difíceis, não aceitaram resignar-se à ausência de liberdade. A vigilância da PIDE, as campanhas eleitorais da oposição e a ação de homens e mulheres que lutaram pela democracia atravessam as páginas deste livro.
Ao escrever este romance, procurei recuperar uma memória que não pertence apenas a uma pessoa ou a uma terra. Pertence também à história coletiva de um país e àqueles que, com diferentes percursos e formas de intervenção, contribuíram para que Portugal pudesse viver em liberdade.
Por isso, apresentar o livro em Viseu, num hotel associado à passagem de Humberto Delgado pela cidade e que também entrou na narrativa, é como estabelecer uma ponte entre a memória histórica e a memória literária.
Não pretendo que a literatura substitua a História. Quero, isso sim, que a ajude a chegar a mais pessoas, que desperte curiosidade, que convide à descoberta e que mantenha vivas as perguntas sobre o passado. Porque conhecer aqueles que lutaram pela liberdade também é uma forma de compreender o valor da democracia.
No dia 31 de outubro, o Hotel Avenida será, para mim, mais do que o cenário de uma apresentação. Será o lugar onde se cruzam a memória de um tempo, a história de Júlio Calisto e a vontade de continuar a contar as vidas daqueles que não se conformaram com a ditadura.
Espero encontrar-vos em Viseu, para falarmos de livros, de História e da liberdade que nunca devemos tomar como garantida.
Acácio Pinto
Apresentação de Um Republicano na Mira da PIDE
31 de outubro de 2026, sábado
17h00
Hotel Avenida, Viseu
