Um livro tão encantador!

 


Há histórias simples que nos encantam. Simples, mas complexas nas suas causas, nos seus conteúdos e nas suas consequências.

Afonso Cruz, com a maestria habitual, traz-nos um pintor. Sors, assim se chamava, foi acolhido em casa dos seus avós, na Figueira da Foz. Precisamente, debaixo do lava-loiças.

Afonso Cruz traz-nos este O Pintor Debaixo do Lava-Loiças.

Fugido, lá de longe, onde a guerra, a Segunda Guerra Mundial, se encarregava de matar os judeus, este acabou em Portugal. Acabou em casa de gente decente e generosa. De gente.

Que lindas metáforas. Que belas reflexões. Que prosa tão poética!

Não, não está lá o conflito militar, os combates, esse não é o foco. O centro da narrativa é a família de Jozef Sors. Uma família tão simples e tão complexa nas suas formas de ser. Do pai. Da mãe. E dele próprio. Do filho. E através dela mostra-nos a vida. Nua e crua.

É um olhar íntimo, intimista, sobre a condição humana. Sobre a política. A democracia. A governação. E a tolerância!

Este romance lê-se com um brilhozinho nos olhos. Abertos ou fechados. Ou não fosse a personagem principal um pintor. Pintor que desenhava olhos. De pessoas. Das pessoas.

Vejam-se breves excertos:

“Se um homem tiver fome, o seu estômago tomará o poder. Nenhuma cabeça, nenhuma ordem será capaz de contrariar a barriga vazia.”

“Uma pessoa não pode ser boa se não tiver o poder para disparar e renunciar a isso”.

“Temos um bocado de pão e temos de o dividir por dois. Parece elementar, mas é demasiado complexo. Nenhuma escola ensina esta operação com eficiência. A prova está à nossa volta”.

“As cadeiras não devem ter encosto, pois isso é um símbolo de um homem acomodado”.

Uma leitura encantadora! Divirtam-se e reflitam, com ela!

TÍTULO: O Pintor Debaixo do Lava-Loiças

AUTOR: Afonso Cruz

EDITORA: Caminho

PÁGINAS: 174

Recensão Acácio Pinto

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