Uma pérola de arte nas Pedrosas
Há lugares que nos surpreendem pela beleza, outros pela história e outros ainda pela capacidade de nos revelarem mundos que estão tão próximos de nós. Foi um pouco de tudo isto que senti na visita que fiz ontem ao Museu de Pintura Naïf de Sátão, nas Pedrosas.
Num território do interior, tantas vezes visto a partir das suas ausências e das oportunidades que lhe faltam, encontrar um espaço desta natureza é uma agradável surpresa. Mais do que um museu, estamos perante uma janela aberta para diferentes geografias, sensibilidades e maneiras de olhar o mundo.
A coleção, doada por um bom amigo, Hermínio Marques Ferreira, à Câmara Municipal de Sátão, constitui um dos grandes motivos de interesse deste espaço. A diversidade de artistas e de proveniências, com obras de Portugal, Espanha e de países da América Latina, proporciona ao visitante um percurso que atravessa culturas e universos imaginativos distintos. Na arte naïf há uma liberdade expressiva que nos interpela: a realidade surge frequentemente reinventada, as cores ganham vida própria e o quotidiano transforma-se em matéria artística. Há nela uma espontaneidade que não significa ausência de intenção, mas antes uma forma particular de ver e representar o mundo.
É precisamente essa diversidade que torna a visita tão estimulante. Cada obra acrescenta uma perspetiva, cada pintor nos oferece uma linguagem, cada conjunto nos convida a demorar o olhar. E percebemos, à medida que percorremos o espaço, que a arte não precisa de obedecer a uma única gramática para nos emocionar ou surpreender.
Também o edifício merece atenção. O projeto arquitetónico, a organização do espaço expositivo e a forma como as obras são apresentadas contribuem para uma experiência agradável, deixando perceber as potencialidades de um equipamento cultural que merece ser conhecido e valorizado.
Mas um museu não vive apenas das suas paredes, da arquitetura ou das obras que guarda. Vive também das pessoas que o visitam, das histórias que conta, das atividades que promove e da capacidade de criar relações com a comunidade. É aqui que vejo uma margem de crescimento particularmente interessante para o Museu de Pintura Naïf de Sátão: nas visitas escolares, nas iniciativas de divulgação, nas parcerias culturais e turísticas e na sua afirmação como destino para quem procura descobrir o património artístico do país. Há até um conjunto de desenhos de alunos das escolas do Agrupamento de Escolas de Sátão que são uma boa surpresa.
A doação de Hermínio Marques Ferreira merece, por isso, ser entendida também como um gesto de generosidade para com a comunidade. Uma coleção ganha uma nova dimensão quando deixa de ser apenas um conjunto de obras reunidas por alguém e passa a constituir um património acessível a todos.
Num país em que a oferta cultural tende a concentrar-se nos grandes centros urbanos, espaços como este demonstram que também no interior se podem construir projetos diferenciadores, com qualidade e ambição. Não basta, porém, criá-los. É necessário divulgá-los, integrá-los nos roteiros culturais e turísticos e garantir-lhes a atenção institucional que a sua importância justifica.
Saí das Pedrosas com a sensação de ter descoberto uma pérola cultural que merece maior notoriedade. E com uma convicção: Sátão tem aqui um recurso que pode orgulhar o concelho, enriquecer a região e surpreender quem o visita.
Às vezes, para descobrir novos mundos, não precisamos de percorrer grandes distâncias. Basta entrar num museu, olhar demoradamente para as suas paredes e deixar que a arte nos leve mais longe.
E foi isso que me aconteceu nas Pedrosas.
