Intervenção de João Cruz na apresentação de Um Republicano na Mira da PIDE em Viseu


É com muito gosto que nos reunimos hoje neste antigo Hotel Avenida — hoje, Avenida Boutique Hotel — para apresentar o romance Um Republicano na Mira da PIDE, de Acácio Pinto.

A presença do Senhor Presidente da Câmara valoriza esta sessão e associa o Município de Viseu a uma iniciativa de evocação histórica e de valorização da memória democrática.

Mas este encontro tem também um significado especial pelo lugar onde decorre. Este edifício está ligado a momentos importantes da história política da cidade e do país. É, por isso, particularmente significativo que aqui recordemos Júlio Calisto, um homem que viveu sob a vigilância da PIDE e que nunca deixou de participar ativamente na vida política.

É a história desse homem, recuperada pelo trabalho de investigação do meu amigo Acácio Pinto, que hoje nos reúne.

Este edifício, o antigo Grand Hotel Avenida, faz parte da memória política, da memória da Liberdade e da Democracia, da memória cívica de Viseu. Júlio Calisto faz parte da história daqueles que as defenderam. E este romance histórico-biográfico de Acácio Pinto ajuda-nos a não esquecer nenhum dos dois.

Foi aqui, em 23 de maio de 1958, que Humberto Delgado falou aos portugueses durante a sua campanha para a Presidência da República. Dez anos depois, em março de 1968, este espaço voltou a ser lugar de encontro de democratas, desta vez em solidariedade com Mário Soares, deportado para São Tomé, sem prévio julgamento e por tempo indefinido, como veremos adiante.

E hoje reunimo-nos aqui para falar de Júlio Correia da Rocha Calisto, um republicano que viveu sob a vigilância da PIDE e que dedicou em plenitude a sua vida às causas da Liberdade e da Democracia.

Três momentos diferentes, neste mesmo lugar, unidos por uma preocupação comum: a Liberdade.

Mas há outra razão para esta apresentação ser especial. É autor deste livro o meu amigo e correligionário Acácio Pinto, com quem partilhei muitos anos de atividade política e cívica.

Acácio, obrigado pelo convite.

Do Acácio Pinto, conhecemos o professor, o geógrafo, o homem do Sátão, o antigo Governador Civil e Deputado à Assembleia da República. Mas conhecemos também o homem da causa pública, alguém que acredita na importância da participação e das instituições democráticas.

Por isso, ao ler este romance, não vejo apenas um exercício de investigação histórica. Vejo também uma forma de compromisso com a memória.

Recordar Júlio Calisto é lembrar o Estado Novo, o salazarismo e compreender o cidadão que viveu num Portugal amordaçado em que a Liberdade foi cruelmente negada.

É por aqui que gostava de começar.

1. Um homem que não aceitou o destino que lhe traçaram

Júlio Correia da Rocha Calisto nasceu no Sátão, em 1897, e morreu em 1973.

Há uma coincidência feliz nesta história: Júlio Calisto era natural do Sátão, tal como o próprio Acácio Pinto.

Mas o que mais me impressionou na história de Júlio Calisto foi a forma como começou a sua vida.

Nasceu numa sociedade em que ser filho ilegítimo constituía um forte estigma social. E há uma primeira conclusão que retiro ao conhecer melhor as suas origens: as certidões de nascimento não fazem o carácter.

Júlio fez-se homem pelo estudo. Formou-se em Direito, foi para Ílhavo e construiu aí uma parte importante da sua vida profissional e cívica.

Mas não se limitou a construir o seu próprio caminho. Envolveu-se na vida pública e transformou as suas convicções em participação política.

E é aqui que a sua história começa a ganhar um significado que ultrapassa a biografia de um advogado.

Primeiro, procurou conquistar, através do estudo e do trabalho, o lugar que a sociedade parecia negar-lhe. Mais tarde, confrontou-se com outra forma de exclusão: a de um regime que limitava a liberdade de pensamento, a participação cívica e os direitos políticos.

De certa maneira, procurou libertar-se do destino que outros lhe tinham traçado e, depois, contribuir para libertar o próprio país.

É esta dimensão humana que considero particularmente interessante neste romance de Acácio Pinto.

Porque a História não é feita apenas por quem ocupa os lugares de maior destaque. É feita também por pessoas que, no seu tempo e à sua maneira, decidem intervir na sociedade.

E Júlio Calisto foi uma dessas pessoas.

2. Humberto Delgado e a esperança de 1958

Porém, regressemos, por momentos, a este edifício.

Imaginem Viseu em maio de 1958. Portugal vivia sob uma ditadura que controlava a imprensa, condicionava a atividade política e recorria à polícia política para vigiar os seus opositores e prendê-los.

Foi nesse contexto que surgiu a candidatura presidencial de Humberto Delgado.

A sua frontalidade, a sua coragem e a forma como enfrentou publicamente o poder mobilizaram milhares de portugueses. Para muitos, aquela campanha representava a possibilidade de uma mudança política e a esperança de que o país pudesse começar a sair de décadas de autoritarismo.

E foi aqui, neste antigo Grand Hotel Avenida, que Humberto Delgado proferiu o seu discurso de 23 de maio.

Aquele não era apenas mais um discurso de campanha. Era uma manifestação de esperança num país em que a disputa política estava longe de ser livre.

Participar numa campanha da oposição significava aceitar o risco de ser observado, identificado e vigiado pelas autoridades.

Ora, Júlio Calisto conhecia bem essa realidade.

Apoiou candidaturas presidenciais da oposição, incluindo as de Quintão Meireles e Humberto Delgado, e participou em diferentes campanhas eleitorais ao longo das décadas de 1940, 1950 e 1960. Em 1957, integrou, em terceiro lugar, a lista da oposição liderada por Manuel Martins das Neves, pelo círculo de Aveiro.

Pensemos na diferença entre participar numa eleição democrática e fazê-lo num regime em que a oposição é condicionada e perseguida.

Para nós, votar, defender uma candidatura ou discordar do Governo são direitos que fazem parte da vida democrática. Naquele tempo, a participação política podia ter consequências pessoais e familiares muito sérias.

A resistência de Júlio Calisto não se resumiu, portanto, a um momento de coragem. Foi uma atitude prolongada no tempo. Uma atitude indomada e indomável.

Humberto Delgado deu rosto a uma esperança nacional. Homens como Júlio Calisto ajudaram a mantê-la viva, mesmo quando a atenção pública diminuía e os riscos continuavam.

E esta é uma das ideias que gostaria que levássemos desta história: a democracia precisa de grandes momentos de mobilização, mas precisa também de pessoas que não desistam nos períodos mais difíceis.

3. A resistência também se fazia de encontros e de solidariedade

Há uma palavra que aparece na história de Júlio Calisto e que merece ser lembrada: a palavra Reviralho.

Em Ílhavo, Júlio integrou o grupo de oposicionistas que se reunia clandestinamente para conversar sobre política, discutir a situação do país e pensar no futuro. Era o grupo do Reviralho, do qual faziam parte vários democratas e republicanos, como Mário Sacramento e Eduarda Senos.

Gosto particularmente desta dimensão da história porque nos aproxima do quotidiano da resistência.

Às vezes, quando pensamos na oposição à ditadura, lembramo-nos sobretudo das grandes figuras históricas e dos acontecimentos que ficaram nos livros. Mas a resistência também se fazia em casas particulares, em escritórios, em cafés e em reuniões entre amigos.

Eram pessoas que conversavam, trocavam livros, partilhavam preocupações e construíam relações de confiança.

A ditadura podia controlar os jornais e vigiar os oposicionistas. Mas não conseguia impedir completamente que as pessoas se encontrassem e pensassem em conjunto.

Júlio Calisto fazia parte de uma rede mais ampla de democratas e republicanos, entre os quais Mário Sacramento, Manuel das Neves, Costa e Melo, João Sarabando, Álvaro Seiça Neves, Carlos Candal e Eduarda Senos, entre outros.

A resistência tinha uma dimensão nacional, mas construía-se também localmente, através de pessoas e de comunidades que procuravam manter vivos os ideais da liberdade.

Essa dimensão esteve presente na ligação de Júlio Calisto à organização da conferência de Jaime Cortesão, em 1956, e à organização do I Congresso Republicano de Aveiro, em 1957.

Num país submetido à censura e à vigilância policial, reunir republicanos e democratas de diferentes sensibilidades era, por si só, uma afirmação política.

E é também por isso que considero importante a história que Acácio Pinto recupera: mostra-nos que a democracia portuguesa não se construiu apenas nos grandes acontecimentos, mas também no trabalho persistente de pessoas que continuaram a participar quando a mudança parecia distante.

Há ainda um episódio que nos traz de volta a este edifício.

Em março de 1968, após a deportação de Mário Soares para São Tomé, democratas e oposicionistas reuniram-se em Viseu para manifestar solidariedade e repudiar aquela medida. Existem referências documentais a telegramas enviados de Viseu e de outras cidades, pedindo a revogação da ordem de fixação de residência de Mário Soares em São Tomé.

(AQUI LER A PASSAGEM DO ROMANCE, PÁGINAS 222 E 223)

Esta reunião, realizada no antigo Grand Hotel Avenida, ganha um significado especial quando a colocamos ao lado do discurso de Humberto Delgado, dez anos antes.

Em 1958, este lugar estivera associado à esperança de mudança através de uma campanha eleitoral. Em 1968, voltava a ser espaço de encontro e de afirmação cívica perante a repressão e a arbitrariedade.

A ditadura procurava isolar os opositores, fazê-los sentir que estavam sozinhos e desencorajar qualquer gesto de solidariedade.

Quando aquelas pessoas se reuniram para protestar, estavam a fazer precisamente o contrário. Estavam a dizer que ninguém devia ficar sozinho perante a perseguição.

E há aqui uma ideia profundamente republicana: a cidadania não se limita a defender os nossos próprios direitos. Implica também preocuparmo-nos com a liberdade dos outros.

4. Um livro emprestado e a vigilância da PIDE

Gostava agora de vos contar um episódio que me impressionou particularmente.

Em 1959, Júlio Calisto recebeu em casa um homem que julgava ser um companheiro da oposição. Confiando nele, emprestou-lhe um livro para ler.

O livro era Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro.

Só que aquele homem era, afinal, um infiltrado da PIDE.

Pensemos um pouco nisto.

Hoje emprestamos um livro a alguém sem pensar duas vezes. Naquele tempo, um gesto tão banal podia tornar-se motivo de suspeita e integrar uma rede de vigilância.

Uma amizade podia ser vigiada. Uma conversa podia ser registada. Um livro podia servir para recolher informações sobre as convicções políticas de alguém.

Este episódio, resultante da investigação documental feita por Acácio Pinto nos arquivos da PIDE/DGS, ajuda-nos a perceber a dimensão quotidiana da repressão.

Uma ditadura não teme apenas as grandes manifestações. Teme também a circulação das ideias, a possibilidade de duas pessoas conversarem livremente e a oportunidade de alguém ler um livro e começar a questionar o mundo à sua volta.

E talvez seja essa a força desta história: através de um gesto simples, conseguimos compreender o ambiente de desconfiança em que Júlio Calisto vivia.

Mas a vigilância não ficou por aí.

Em 1949, depois do apoio à candidatura de Norton de Matos, Júlio foi preso para investigação. E, em dezembro de 1962, após um período prolongado de vigilância, foi novamente preso, numa operação da PIDE na região de Aveiro que atingiu numerosos democratas e republicanos, entre eles Mário Sacramento.

Júlio Calisto foi conduzido para Caxias.

É nestes momentos que o título do livro ganha toda a sua força: Um Republicano na Mira da PIDE.

Porque estar na mira da polícia política significava viver com a consciência de que as nossas ações podiam estar a ser observadas e de que a participação política podia ter um preço.

Por detrás dos relatórios, das datas e dos processos existiam pessoas, famílias, profissões, amizades e vidas inteiras.

O mérito de um trabalho como este, de que resultou este romance histórico-biográfico, é precisamente ajudar-nos a olhar para os documentos e a reconhecer as pessoas que estão por detrás deles.

E há uma pergunta que esta história nos deixa: quanto estamos dispostos a arriscar para não abdicarmos daquilo em que acreditamos?

Não é uma pergunta exclusiva daquele tempo. É uma pergunta que cada geração deve saber colocar a si própria.

5. A estafeta da liberdade

Gostava de terminar regressando à ideia que atravessou a leitura deste romance.

Para mim, há uma palavra que liga a história de Júlio Calisto, a memória de Humberto Delgado, os encontros de democratas neste edifício e o próprio trabalho de Acácio Pinto: é a palavra estafeta.

A República de 1910 deixou uma herança de ideais e expectativas. Júlio Calisto e outros republicanos procuraram mantê-la viva durante a ditadura. Humberto Delgado, em 1958, deu voz a uma esperança de mudança que mobilizou o país. Os democratas que se reuniram aqui, em 1968, mostraram que essa esperança continuava viva, apesar da repressão.

Depois vieram os homens e as mulheres que fizeram o 25 de Abril e tornaram possível a construção das instituições democráticas que hoje conhecemos.

Cada geração recebeu um testemunho. E cada geração teve a responsabilidade de o transmitir.

Hoje, esse testemunho está nas nossas mãos.

E é aqui que a história de Júlio Calisto nos interpela diretamente enquanto cidadãos do presente.

Quando olhamos para a realidade dos nossos dias, não podemos deixar de reconhecer que a democracia enfrenta novos desafios. O crescimento de discursos extremistas, a polarização política, a intolerância perante a diferença, a desvalorização das instituições e o enfraquecimento da confiança na vida democrática são sinais que merecem a nossa atenção e reflexão.

Naturalmente, não estamos perante o Portugal do Estado Novo. Seria historicamente errado estabelecer comparações simplistas entre realidades tão diferentes. Vivemos em liberdade, temos eleições livres, instituições democráticas e direitos fundamentais consagrados.

Mas seria igualmente errado pensar que a liberdade e a democracia estão definitivamente garantidas.

A História ensina-nos que os direitos e as liberdades podem ser conquistados com enormes sacrifícios, mas precisam de ser defendidos todos os dias.

A democracia não se esgota no direito de votar. Constrói-se também no respeito pelos outros, na liberdade de expressão, no pluralismo, na tolerância, na justiça, na participação cívica e na defesa intransigente da dignidade humana.

E exige de todos nós uma atitude de atenção, de responsabilidade e de participação.

Não para transformarmos o passado numa batalha permanente, mas para percebermos que aquilo que hoje nos parece natural — falar, reunir, participar, votar, discordar e publicar um livro sem autorização do Estado — nem sempre foi possível.

Houve pessoas concretas que trabalharam e sofreram para que essa liberdade chegasse.

Júlio Calisto foi uma delas.

É por isso que vale a pena ler este romance. Porque nos dá a conhecer um homem que a História não deveria esquecer, ajuda-nos a compreender a oposição ao Estado Novo e mostra-nos que a democracia também se construiu através da persistência de pessoas que continuaram a participar quando os riscos eram grandes e as esperanças pareciam pequenas.

E é também por isso que vale a pena agradecer a Acácio Pinto o trabalho que realizou.

Acácio, meu amigo, obrigado por recuperares esta história e por devolveres a Júlio Calisto um lugar na nossa memória coletiva.

Obrigado por nos lembrares que a memória não é apenas uma forma de olhar para o passado. É também uma maneira de compreendermos melhor o presente e de assumirmos responsabilidades perante o futuro.

E permitam-me terminar regressando ao lugar onde estamos.

Em 1958, aqui se ouviu Humberto Delgado. Em 1968, aqui se reuniram democratas em solidariedade com Mário Soares. Hoje, aqui nos encontramos para recordar Júlio Calisto e para falar da liberdade.

Um discurso, uma reunião e a apresentação de um livro.

Três momentos diferentes, unidos pela mesma convicção de que a liberdade merece ser defendida.

Que saibamos honrar aqueles que nos passaram este testemunho, cuidar da democracia que recebemos e transmiti-la, inteira, às gerações que virão.

E termino com três exclamações:

Viva a Liberdade!

Viva a República!

Viva o 25 de Abril!            

Muito obrigado a todos.

 Avenida Boutique Hotel, 31/10/2026- Viseu

 João Ferreira da Cruz

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