A Figueira da Foz também vive n’O Emigrante
A Figueira da Foz, e muito particularmente Bunhos (o nome literário de Buarcos), ocupa um lugar especial no romance O Emigrante, de Acácio Pinto. Não é apenas um território onde algumas cenas acontecem. É um espaço que acompanha as personagens, as suas relações, as suas memórias e, de certo modo, o próprio percurso de uma família atravessada pela emigração.
Quando se fala da emigração portuguesa “a salto” para
França, nos anos 60, é natural pensar sobretudo nas aldeias e pequenas
localidades do interior, de onde partiram milhares de homens em busca de uma
vida melhor. É esse o universo de Renato, uma das personagens centrais de O
Emigrante, oriundo da região de Viseu. Mas o romance estabelece, desde cedo,
uma outra geografia: a de Augusto, natural de Bunhos, na Figueira da Foz e também ele emigrante, que conheceu Renato numa viagem a bordo do Sud-Express.
É através de Augusto que a Figueira entra profundamente na
narrativa. E entra não apenas como lugar de origem, mas como espaço de afetos,
de relações familiares, de mudanças e também de algumas das tensões que atravessam
a vida das personagens.
Bunhos/Buarcos assume, assim, uma presença muito particular.
É ali que ficam a mulher e o filho de Augusto, enquanto ele parte para França.
E é ali que a distância provocada pela emigração vai deixando as suas marcas. A
casa familiar, entretanto transformada para responder à crescente procura
turística do verão, torna-se também parte dessa transformação de uma terra que,
ao longo das décadas, foi mudando a sua relação com o mar, com o turismo e com
quem nela vivia.
A ligação à Figueira começa, aliás, antes da emigração. No
final dos anos 50, quando Renato cumpria o serviço militar no quartel da
Figueira da Foz, aconteceu-lhe um episódio marcante. Foi em setembro de 1959,
durante as festas de Nossa Senhora da Encarnação, quando ele teve um encontro
amoroso com uma jovem de Bunhos. Um episódio breve, de consequências
imprevisíveis, que ajuda a construir a relação de Renato com este território
muito antes de a história das duas famílias se entrelaçar.
Essa ligação tornar-se-á ainda mais forte numa geração
seguinte. Rita, filha de Renato, e Raul, filho de Augusto, acabam por unir as
duas famílias. O casamento realiza-se na Igreja de São Pedro, em Buarcos, e a
celebração prolonga-se num dos lugares mais emblemáticos da paisagem
figueirense: o restaurante panorâmico da Serra da Boa Viagem, com a sua
extraordinária vista sobre o mar e sobre a baía da Figueira da Foz.
É também significativo que, no final do romance, a ligação à
Figueira permaneça. Rita vai viver para a Murtinheira, numa vivenda que herdara
da sogra, depois da morte desta no Centro Geriátrico Luís Viegas Nascimento, na
Gala. A história que começou longe do litoral acaba, assim, por encontrar na
paisagem da Figueira da Foz um dos seus lugares de permanência.
Mas a Figueira que aparece em O Emigrante não se resume às personagens. O romance recupera também
referências concretas que ajudam a evocar uma cidade e uma região de outras
décadas: as salinas da Morraceira, a Praia da Claridade e o designado “oásis”,
inaugurado em 1999, durante a presidência de Santana Lopes, ou ainda a memória
da marisqueira e cervejaria Tubarão, junto ao Relógio, espaço que pertenceu
durante anos à geografia afetiva e gastronómica da cidade.
São referências aparentemente pequenas, mas que cumprem uma
função importante: ajudam a dar espessura temporal ao romance e permitem que a
Figueira da Foz não seja apenas reconhecível no mapa, mas também na memória.
No fundo, O Emigrante
é uma história sobre partidas e regressos, sobre a distância e as suas
consequências, sobre famílias que se transformam com o tempo. E, nessa
geografia de afetos, a Figueira da Foz ocupa um lugar muito especial.
Bunhos/Buarcos, a Serra da Boa Viagem, a baía, a Praia da Claridade,
a Morraceira, a Gala, a Murtinheira, são lugares que não servem apenas de pano
de fundo à narrativa, mas que ajudam a contar a própria história.
Por isso, quem ler O Emigrante conhecendo a Figueira da Foz
encontrará no romance mais do que uma história de emigração. Encontrará também
uma Figueira de outras décadas, feita de lugares, de paisagens e de memórias, algumas ainda reconhecíveis, outras já pertencentes ao território da lembrança.
NOTA: No dia 19 de setembro o romance O Emigrante será apresentado, às 17h30, no Lavadouro de Buarcos, numa parceria com a Junta de Freguesia de Buarcos.
Foto: recortada de https://www.youtube.com/@proximodestinoeu
