O PIDE que recebeu como leitura de férias o romance “Quando os Lobos Uivam”
Crónica publicada no Diário de Aveiro de 29 de junho de 2026.
O romance Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, que tinha por pano de fundo a brutalidade do Estado Novo contra as populações rurais, chegou aos escaparates em 1958. Porém, não demorou muito até que os censores tratassem de o condenar ao fogo do inferno.
O ‘crítico literário’ de serviço para essa empreitada escreveu
em fevereiro de 1959 que “o autor
intitula este livro de romance, mas com mais propriedade deveria chamar-lhe de
romance panfletário, porque todo ele foi arquitetado para fazer um odioso
ataque à atual situação política”.
E acrescenta ainda o relator sobre a obra: “Escrito numa prosa viril, classifica o
governo de piratas e descreve várias Autoridades, Funcionários, Polícia, Guarda
Republicana e Tribunais em termos indignos e insultuosos”.
Ora, face a esta inequívoca litania (de que aqui só deixei
dois excertos) os exemplares ainda por vender foram apreendidos e Aquilino
Ribeiro foi alvo de um processo de que só uma amnistia publicada em 12 de
novembro de 1960 lhe permitiu não ir a julgamento.
Foi nesse contexto que o infiltrado da PIDE, que tinha o
pseudónimo de Alegre e que se passava por oposicionista, em junho de 1959,se
deslocou à rua Frederico Cerveira, em Ílhavo, a casa do Dr. Júlio Calisto, advogado
e um dos principais oposicionistas da região no combate a Salazar. Foi lá para
se despedir antes de partir em gozo de férias de verão. O advogado, que o tinha
por seu camarada de luta, entregou-lhe um livro para ler nas férias, mas com o
devido cuidado!
E que livro foi esse?
Precisamente, o romance Quando
os Lobos Uivam, então já proscrito.
Não dando parte de fraco, para não lhe cair a máscara, o
infiltrado recebeu a obra e, de imediato, escreveu uma nota para o seu chefe em
Coimbra onde lhe relatou tal ocorrência, não fosse o diabo tecê-las!
Face ao que precede, com base nos documentos que consultei,
retiro deste acontecimento uma conclusão e fico com uma dúvida. Quanto à
primeira é que os censores andaram atrasados uma vez que quando o livro foi
apreendido os principais oposicionistas de Salazar, indefetíveis leitores de
Aquilino, já o tinham na sua posse. A incerteza é a de que não fiquei a saber
se o dito PIDE leu ou não aquele livro durante as férias que foi passar a
Lisboa.
Quem o leu em 2026, volvidos 68 anos, não há dúvida, foram
José Pacheco Pereira e Henrique Monteiro que assinam, respetivamente, o
prefácio e a introdução de uma reedição deste romance que saiu neste mês de
junho e que contou com o apoio da autarquia de Vila Nova de Paiva, que daqui
saúdo.
E a talho de foice importa ainda referir que José Pacheco
Pereira e os seus colaboradores da Ephemera
nos brindaram, igualmente, este mês, com numa exposição na Biblioteca Municipal
de Mangualde, que nos traz inúmeros nacos de prosa censória de livros, operada
nos tempos da ditadura.
PS: O romance histórico-biográfico Um Republicano na Mira da PIDE, inspirado na vida de Júlio Calisto,
a apresentar na Biblioteca Municipal de Ílhavo no dia 3 de julho às 18h00,
contém várias histórias sobre a vigilância que a PIDE efetuava sobre os oposicionistas
da região de Aveiro.
Acácio Pinto
