Somos o esquecimento que seremos: uma obra-prima de Faciolince
Que livro! Somos o esquecimento que seremos do Héctor Abad Faciolince.
Direi mesmo que é muito mais do que um livro, é uma
obra-prima da arte de nos emocionar pela escrita! É uma narrativa impregnante. Que
se nos cola ao pensamento. Impressiva! É literatura da boa.
Não o li de rajada! Meteram-se alguns afazeres pelo meio!
Porém, quando cheguei, mais ou menos, a meio, não mais parei. Li-o num ápice. Toldou-me,
até!
Estão lá três décadas da história de Medellín. Da Colômbia,
afinal! A de 60, a de 70 e a de 80. De um país em convulsões políticas permanentes.
Em guerrilha. Em que a frase de José Millán-Astray, “viva a morte, abaixo a
inteligência”, ditou as regras sob o comando de milícias paramilitares ante o
silêncio (instigador) e a passividade dos governantes.
Mas o livro é sobre a história da Colômbia?
Ela está lá, mas não é propriamente.
O autor narra-nos (biografa-nos), com uma linguagem
deliciosa, na primeira pessoa, uma história, a da sua família. Do seu pai. Uma família que
teve momentos de felicidade. De muita felicidade. Das contradições ideológicas
do seu pai e da sua mãe. E da síntese mais que perfeita que dali adveio. Mas
também nos descreve as adversidades. As contrariedades. As perseguições. Também
dos antigos aliados do pai. Só porque ele era um humanista. Um pacifista. Que
não transigia ante esses seus valores. E a morte. De uma das irmãs. E do pai, Héctor
Abad Gómez, em 1987. Às mãos de sicários.
Enquanto o seu pai utilizava as palavras, como denúncia das
assimetrias, da pobreza, da fome, através de artigos nos jornais, de
conferências, de ações nos bairros pobres, os visados, os do poder, os “bananeiros”
e os “ganadeiros” instalados, utilizavam chumbo. Que distribuíram a esmo.
E foi a arma de seu pai, as palavras, vinte anos depois, que
Faciolince utilizou para “prolongar a sua [do pai] recordação um pouco mais,
antes que chegue o esquecimento definitivo.”
Diz-nos o autor a este propósito: “Este livro é a tentativa de deixar um testemunho dessa dor,
um testemunho ao mesmo tempo inútil e necessário. Inútil, porque nem o tempo
pode ser devolvido, nem os factos modificados, mas necessário para mim, pelo
menos, porque a minha vida e o meu ofício careciam de sentido se não escrevesse
isto que sinto que tenho de escrever e que, em quase vinte anos de tentativas,
só agora fui capaz de redigir”.
Afinal “a única hipótese de esquecimento e de perdão
consiste em contar o que aconteceu e nada mais”.
Sim, “Já somos o esquecimento que seremos” é o primeiro
verso de um soneto, Epitáfio, de Jorge Luís Borges que, premonitoriamente, foi
encontrado no bolso do casaco do pai, redigido com a sua caligrafia, quando foi
abatido nas ruas de Medillín.
É um livro tão delicioso quanto comovente!
TÍTULO: Somos o esquecimento que seremos
AUTOR: Héctor Abad Faciolince
EDITORA: Alfaguara
PÁGINAS: 315
Acácio Pinto (Recensão)
