Após a morte o trair no dia anterior, Mário Sacramento foi a sepultar no Cemitério de Aveiro no dia 28 de março de 1969.
Tinha em
mãos a organização do II Congresso Republicano de Aveiro que iria ter lugar no
Teatro Aveirense nos dias 15, 16 e 17 de maio desse ano. Nessa altura Salazar
agonizava desde a queda, no dia 3 de agosto do ano anterior, da cadeira de lona
no Forte de Santo António da Barra, no Estoril e para presidir ao Conselho de
Ministros fora nomeado Marcelo Caetano.
Vem esta
crónica a propósito do meu próximo romance histórico-biográfico UM REPUBLICANO NA MIRA
DA PIDE, cuja personagem principal, Júlio, foi inspirada em Júlio Correia da
Rocha Calisto, advogado, e que travou muitas lutas em Ílhavo e na região de
Aveiro ao lado de Mário Sacramento, que no romance inspirou a personagem Mário.
Na cena do romance que hoje, em pré-publicação, vou partilhar convosco, surge
ainda a personagem Álvaro que foi inspirada em Álvaro José Pedrosa Curado de Seiça Neves, filho de Manuel das Neves, que
falecera a 31 de janeiro de 1965.
Eis a cena:
— Não me esqueço da frase do
Mário: “Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!” — disse
Júlio a Álvaro, à saída do cemitério, no dia do funeral. — Cabe-te a ti, agora,
a honrosa missão de prosseguir o trabalho de principal responsável da comissão
executiva do congresso. Não poderemos esmorecer na nossa luta!
— Pela minha parte ajudarei a
levar a nau a bom porto, mas ele é insubstituível.
Com os seus 71 anos, Júlio via
partir mais um amigo a quem o ligavam fortes laços de uma longa cumplicidade
que se começara a forjar em Ílhavo em finais dos anos 40. Acompanhando-o até à
última morada, no cemitério de Aveiro, onde foi sepultado em campa rasa por sua
expressa vontade, o advogado e as centenas e centenas de antifascistas que
enchiam o cemitério, vindas de todo o país, ouviram em silêncio as palavras de
Óscar Lopes e Flávio Martins, que enalteceram o percurso de vida de Mário.
Em maio, com Júlio a integrar a
Comissão de Honra, estiveram presentes no congresso mais de 1000 democratas
vindos de todo o país que, embora com divergências, queriam derrubar um regime
que dava sinais de agonia.
Os dados
relativos às pessoas que enalteceram no cemitério o percurso de vida Mário
Sacramento foram recolhidos na edição da noite (3.ª edição) do Diário de Lisboa
de 28 de março de 1969.
O ano de
1969 foi um ano com forte com muitas iniciativas lançadas pela oposição, todas
documentadas no romance: i) manifesto Ao
Povo do Distrito de Aveiro, datado de 1 de janeiro; ii) comemorações do 31
de janeiro com a participação de mais de 500 pessoas, a maioria de Ílhavo; iii)
panfleto O Voto das Mulheres,
assinado por 30 mulheres, entre as quais a esposa de Júlio Calisto, lançado em
fevereiro;; iv) II Congresso Republicano nos dias 15, 16 e 17 de maio; v) novo
manifesto Ao Povo do Distrito de Aveiro,
em agosto, a manifestar o apoio à lista liderada por Alcides Strecht Monteiro;
vi) sessão de propaganda no Teatro Aveirense no dia 3 de outubro, presidida por
Costa e Melo, com Ivone Sacramento a secretariá-lo; vii) sessão de propaganda
no Cineteatro Atlântico de Ílhavo, promovida pela CDE, de apoio à lista da
oposição, presidida por Júlio Calisto.
O
romance, que está em fase de revisão, será publicado no verão, com o lançamento
a ser efetuado em Ílhavo, onde Júlio Calisto residiu, apesar de ter nascido em Sátão, teve escritório de
advogado e presidiu há 100 anos (em 1926) à Comissão Administrativa da
respetiva Câmara Municipal.
Júlio
Calisto nasceu em 23 de agosto de 1897 no Tojal, freguesia de Vila de Igreja,
concelho de Sátão e faleceu no dia 4 de agosto de 1973 em Ílhavo.
Acácio
Pinto, 28.03.2026
Foto do funeral: Do Facebook de Carlos Alberto Sousa
