Ílhavo | Conferência de Mário Sacramento sobre Fernando Namora foi há 59 anos
Faz hoje 59 anos,, Mário Sacramento efetuou no Illiabum Clube de Ílhavo uma conferência subordinada ao título “Fernando Namora, a Obra e o Homem” que, nesse mesmo ano, haveria de vir a ser publicada em livro, com o mesmo título.
A conferência, que teve lugar no dia 28 de abril de
1967, apesar do seu cariz literário, acabou por ter uma vigilância apertada por parte da PIDE que, inclusivamente, produziu um relatório detalhado sobre tudo o que se lá se passou.
Em primeiro lugar disse que “quem teve de fazer a
apresentação [do conferencista] foi o engenheiro João Senos da Fonseca, filho
da Dr.ª Eduarda Senos”, uma vez que, segundo o informador “não conseguiram
arranjar apresentador, porque todos a quem se dirigiram recusaram a
incumbência”.
Igualmente é referido que “embora não se tratasse de assunto político, num ou noutro passo, o conferencista deu as suas piadas ao atual regime”.
Depois o vigilante da PIDE que se identificava como “Alegre” (nome de código), dizendo que tinha presidido “à mesa o Dr. Alcino Couto, Vice-Presidente desta Câmara”, logo refere que “estava pouca gente de Ílhavo, sendo a maioria dos assistentes de Aveiro” e “oposicionistas”.
E é muito interessante a citação seguinte, que
reflete o desconhecimento pela oposição, de que o “Alegre” era informador da PIDE.
Ora vejam: “A Dr.ª Eduarda Senos pediu para eu
arranjar algumas pessoas para irem à conferência, pois estava com receio de que
não aparecesse quase ninguém, o que realmente teria sucedido se não fossem as
pessoas de Aveiro, mas, mesmo assim, estava pouca gente.”
E continua o “Alegre”, que era funcionário da Fábrica da Vista
Alegre: “Da fábrica vi lá José Franco (tesoureiro), José Manuel Parada, João
Carlos da Silva, Manuel M. Gonçalves (escriturário), Palmiro Peixe (torneiro e
dono de um talho).”
Depois refere-se em concreto aos médicos e aos
advogados presentes. Estavam lá os médicos Frederico Moura, de Vagos, Vaz
Cordeiro, subdelegado de saúde de Ílhavo e Correia Lopes de Aveiro e os
advogados Júlio Calisto, Álvaro Neves e Costa e Melo.
O informador acrescenta no seu texto que no final da conferência foram reunir-se para casa do Dr. Júlio Calisto os seguintes elementos:
Mário Sacramento, Costa e Melo, Eduarda Senos, Manuel da Fonseca, João Senos da
Fonseca e Vasco Branco.
Refere ainda como nota conclusiva: “O engenehrio João Senos
da Fonseca e a mãe trabalharam imenso para o bom êxito da conferência e afinal
não conseguiram”.
Esta e outras (muitas outras) histórias inspiraram o meu romance UM REPUBLICANO NA MIRA DA PIDE a sair no verão, em que Júlio Calisto é a personagem principal, mas em que outros oposicionistas, sobretudo de Ílhavo, são igualmente identificáveis.
Acácio Pinto 28.04.2026
