Marginal: mais do que um livro de poemas, é uma filosofia de vida
Foi uma agradável surpresa conhecer Vieira da Silva também na sua vertente de poeta através do seu livro de poemas Marginal.
Conheci-o, em primeira instância, há uns meses atrás,
durante as pesquisas que andava a fazer sobre o protagonista que inspira o meu
próximo romance, Júlio Correia da Rocha Calisto, que foi advogado e residiu em
Ílhavo. E foi nesse contexto de buscas e mais buscas em jornais que dei de caras,
na edição do Diário de Lisboa de 17
de agosto de 1969, com o título “Jovem de Ílhavo foi o Vencedor do I Festival
de Música Popular Portuguesa”. Fui ler e o jovem de Ílhavo era Vieira da Silva.
Esgaravatei mais um pouco e percebi que ele foi um dos
grandes cantores e compositores de música de intervenção, ainda como estudante
de Medicina, tendo, inclusivamente, o seu primeiro disco, de muitos, sido
apreendido pela PIDE em novembro desse mesmo ano.
Depois deu-se o caso de eu publicar um artigo em que referia
vários opositores de Ílhavo ao Estado Novo, um dos quais João Adamastor. E foi
aí que ele me questionou, por mensagem, a que João Adamastor me referia. Logo
lhe respondi que se tratava de um escriturário da Fábrica da Vista Alegre e que
me surgiu de pesquisas que eu tinha feito nos arquivos da PIDE.
“Era meu pai”, respondeu-me.
Foi assim que, de surpresa em surpresa, acabo por chegar à
fala com António Manuel Vieira da Silva num convívio de amigos que aconteceu
para os lados de Ílhavo, onde com gosto recebi das suas mãos a oferta de o Marginal de que agora vou discorrer.
Marginal, mais do que um livro de poemas e cantigas é uma filosofia
de vida
Sim, trata-se de um livro de poemas breves, como logo somos
advertidos na capa, e de cantigas, mas neste caso a brevidade só existe no
número de carateres. O seu conteúdo, o conteúdo de cada poema, é longo e
suculento. Deixa-nos um travo na boca que não passa à primeira. É um caminho
por um trilho de luta por uma vida melhor. Para todos.
Seja no beijo de
abertura, seja na construção da cidade
necessária, seja na canção para um
povo triste, seja onde for, sente-se o sonho, a esperança, o querer, o
acreditar que o homem e que o mundo poderão (deveriam) ser melhores. Sente-se a
crença e a busca do narrador, do eu
poético, por palavras diferentes para escrever, afinal, sempre o mesmo
poema, como Vieira da Silva nos diz logo na abertura.
E que poema é esse?
É um poema em busca de uma madrugada clara! De crença num dia
imaginado! De esperança num abril que há de chegar! É um poema de liberdade!
Gostei de me sentir (porventura também sou!) Marginal por umas horas.
TÍTULO: Marginal (Poemas Breves e Cantigas)
AUTOR: Vieira da Silva
EDITORA: MC – Mundo da Canção (2.ª edição junho de 2010)
Recensão: Acácio Pinto
