"In memoriam" da tia Rosa
O trabalho era o seu foco. Todos os dias. Do sol nado até à noite adentro. Por ela passava tudo, mesmo tudo, o que acontecia naquela casa. Sempre de atalaia para servir. Sempre atenta aos movimentos. Sempre solícita aos pedidos. Sempre com uma voz doce para com todos. Mesmo quando dizia “já chega” àqueles que não cansavam a sede com o graduado vinho do Dão, a sua aspereza era doce, era meiga. É verdade, padre José Henrique, e permita-me a citação, “ela tinha pica, tinha muita pica”. Era, de facto, uma mulher de armas. De garra e com muita garra. Sempre com a adrenalina em alta. Que andava num torvelinho permanente. Do café para a sala das cartas e desta para o salão do primeiro piso. Para aquele santuário gastronómico. Quem nunca pisou aquele chão? Quem nunca provou os seus petiscos? Os seus manjares? As suas iguarias? Quem não se lembra da cabidela? Do cozido à portuguesa? Do bacalhau na brasa? Das enguias? Do leitão? Dos enchidos? E-sei-lá-eu-mais-o-quê? E do queijo? ...