O PIDE que passou o dia a transportar pessoas para o comício de Humberto Delgado

 


 A campanha presidencial de 1958 foi dos momentos mais empolgantes que a oposição viveu durante o Estado Novo. A candidatura do general Humberto Delgado despertava um entusiasmo vibrante no povo — ainda mais evidente depois da desistência de Arlindo Vicente.

Em cada aparição pública, como Delgado, que parecia ter magnetismo, atraía mais e mais gente, as hostes de Salazar começaram a ficar apreensivas. Havia que fazer alguma coisa para que a eleição do contra-almirante Américo Tomás, o candidato do regime, não corresse riscos.

Mas vamos ao caso de que vos quero falar hoje, que teve a ver com o comício que Humberto Delgado levou a cabo no dia 24 de maio, em Aveiro, no Teatro Aveirense, iniciativa que mobilizou todos os opositores da região e que contou com a colaboração, a contragosto, de um informador da PIDE.

“Alegre”, que se passava por oposicionista, mas que, de facto, não era mais do que um infiltrado no seio da oposição de Ílhavo, outro remédio não teve do que beber do seu próprio veneno: estar todo o dia, ele o seu automóvel, “à disposição para levar pessoas da oposição para Aveiro”, conforme ele relatou, no dia seguinte, aos seus superiores.

Este infiltrado, que era escriturário na Fábrica da Vista Alegre, e que se correspondia com a subdiretoria da polícia, de Coimbra, fora escalado pelo advogado Júlio Calisto, um dos principais membros da comissão distrital do general, para fazer o transporte de todos os ilhavenses que se quisessem juntar no comício de Aveiro.

E, por mais que isso lhe custasse, e custou, lá teve de percorrer aqueles 5 km, que separam as duas cidades, por várias vezes.

Com ele foram diversos colegas seus da fábrica, uma vez que “o Joaquim Batista (Escalda)” fora lá distribuir “perto de 30 bilhetes”. Mas, com ele, também foi a “D. Felicidade Guerra (mais conhecida por Dadinha)” que ainda lhe pediu para irem “lançar papéis pela estrada do Porto”. Contudo, o outro maço de panfletos que ela lhe entregou para ele ir “lançar na estrada da Figueira”, nesse dia à noite, tiveram outro destino, como deu a conhecer à PIDE, ao escrever, como bom devoto que era: “disse-lhe que sim, mas escusado será dizer que tal não fiz, queimando-os”.

Porém o inefável “Alegre”, não era um informador qualquer, uma vez que até teve direito a ouvir Humberto Delgado, “na frisa do Dr. Júlio Calisto” (como convidado, pois então!), partilhando aquele espaço com a “D. Felicidade Guerra e a filha, D. Clotilde Calisto, Dr.ª Eduarda Senos e Dr. Manuel da Fonseca”, todos de Ílhavo.

E, para concluir, deixo-vos com as palavras que ele escreveu sobre os ‘seus amigos da oposição’ que usaram da palavra no comício: “Na sessão, os oradores atacaram a Situação e principalmente o Excelentíssimo Senhor Presidente do Conselho. O Dr. Júlio Calisto chegou a empregar a palavra bandoleiros o que foi muito apreciado pelos operários da Fábrica”.

Por hoje, 68 anos volvidos, que dizer mais? Que só o recurso à fraude e à manipulação eleitoral permitiu que o senhor contra-almirante vencesse essas eleições!

Nota: Esta e outras histórias farão parte do meu romance Um Republicano na Mira da PIDE, que será lançado em Ílhavo, no verão, e é inspirado na vida do republicano Júlio Calisto.

Acácio Pinto

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