O concelho da Figueira da Foz no romance "O Emigrante"
A geografia e o tempo andam, sempre, de mãos dadas nos romances. Vejamos então como no romance O Emigrante tal sucede no que diz respeito ao concelho da Figueira da Foz.
Desde logo, no primeiro capítulo, numa cena que se passa a
bordo do comboio Sud-Express, em final de agosto de 1967, dois emigrantes, de
regresso a França, efetuam a viagem lado a lado, sentados no corredor de uma
das carruagens completamente lotada.
Durante a travessia da Meseta Castelhana, de noite, quando a fome
começou a apertar, por entre a partilha de merendas que ambos levavam, as
respetivas terras de origem vieram à baila.
Um era da região de Viseu (Renato) e o outro era
de Bunhos, concelho da Figueira da Foz (Augusto).
— Mas não fica mesmo
ao lado da Figueira?
— Ficar fica, mas nós
não gostamos da malta da Figueira! Têm a mania de que são mais importantes do
que nós, só porque são da cidade! — vincou Augusto. — Conheces Bunhos, já lá
estiveste?
— Eu fiz a tropa na
Figueira da Foz, no quartel da Lapa, no Regimento de Artilharia Pesada —
explicitou Renato. — E fui algumas vezes a Bunhos, nas festas de verão. Ia aos
bailes, com outros soldados...
— Festa de Nossa
Senhora da Encarnação — interrompeu-o Augusto.
Parece que não restam dúvidas de que Bunhos, até pela
localização, é o nome ficcionado de Buarcos. Mas se dúvidas houvesse vejam, o
diz Pinho Leal no seu Portugal Antigo e Moderno: “A povoação primitiva eram cabanas de bunhos e arcos e destas
duas palavras se pretende que veio o nome” Buarcos.
No capítulo 6, Augusto, em 1971, faz obras numa moradia que herdara do
sogro, em Bunhos, para a transformar em pensão.
— É um pequeno
investimento num negócio que começa a dar dinheiro, sobretudo no verão. A malta
que quer ir à praia paga bom dinheiro por uma ou duas semanas. Como na Figueira
as rendas são altas, vão para Bunhos.
Depois de vários outros pormenores, no capítulo 5 da Parte
II, coincidência das coincidências, a filha de Renato (Rita) e o filho de Augusto (Raul) casaram-se, em 1982.
Diz o livro: O casamento teve lugar na
Igreja de São Pedro, em Bunhos. E logo de seguida refere: A boda foi servida no restaurante
panorâmico da Serra da Boa Viagem, um ex-libris, com uma esplêndida vista sobre
o mar e a baía da Figueira da Foz.
Em 1999, Augusto quis
ir ver com os seus próprios olhos o designado “oásis” da Figueira da Foz que
fora inaugurado no dia anterior pelo Presidente da Câmara, Santana Lopes.
E, poucas linhas abaixo, é referido: Ia Augusto neste solilóquio quando, ao atravessar na passadeira da
Torre do Relógio, para ir beber uma cerveja à esplanada do Tubarão, foi
atropelado por um carro que circulava a grande velocidade.
Ora, quem não conhece/conheceu estes icónicos locais da
marginal da Figueira da Foz?
Mas não se fica por aqui. No capítulo 9, o livro leva-nos a
norte da Serra da Boa Viagem, à freguesia de Quiaios.
O jornalista Rúben
Gonçalves, de férias com a filha na Figueira da Foz, estava atrasado relativamente
à hora combinada com Rita Pedreiro. Ela aguardava-o na esplanada do Bart, o seu bar de praia de eleição.
— Vivo mais ali acima,
na Murtinheira. Vim dar aulas para a Figueira da Foz e fiquei a morar numa
vivenda que era da minha sogra.
— Ah! Ok. Quando me
sugeriste vir aqui ter contigo achei muito bem. Eu e esse meu amigo costumamos
frequentar este bar. Também já fomos algumas vezes beber um copo ao Englobar, à noite.
E é neste enquadramento geográfico do concelho da Figueira
da Foz (serra e praia) que este romance termina, depois de revelados alguns
segredos e de acontecerem algumas tragédias. Está claro que, ante este
enquadramento, não poderia deixar de renascer uma esperança forjada num amor antigo que parece estar a despontar!
