Polémica em Ílhavo, em 1931, visando Júlio Calisto
Em primeiro lugar importa dizer quem foi JúlioCalisto (1897-1973). Foi advogado, com escritório em Ílhavo, tendo desempenhado,
há 100 anos — de julho a outubro de 1926 — as funções de Presidente da Comissão
Administrativa da Câmara Municipal de Ílhavo.
Vamos então à polémica que o visou em 1931.
Corria o mês de abril quando Júlio Correia da Rocha
Calisto foi alvo de um ataque violentíssimo no jornal O Ilhavense, de que era diretor José Pereira Teles. Um ataque à sua
honra e à sua honorabilidade.
Atente-se desde logo no título do artigo que não era
assinado: “Um Burlão”! E depois no conteúdo: “um bacharel em leis” que vive de “expedientes
e de patifarias”. E acrescentava ainda que o visado falsificava os valores de
letras que as pessoas lhe entregavam para cobrança, aumentando-os, para se
pagar indevidamente.
Foi exatamente assim que o articulista escreveu na
edição de 12 de abril de 1931 de O
Ilhavense.
Face ao que precede, estarão já a pensar: o caso
acabou na justiça, até porque Júlio Calisto era advogado e não ia deixar passar
em claro um ataque deste jaez.
A resposta é não. O que aconteceu foi a publicação
de inúmeros artigos, agora envolvendo também os outros jornais do concelho, sobre
aquele polémico texto e que vamos detalhar de seguida.
No dia 19 de abril, Júlio Calisto ripostou no jornal
Beira-Mar com um artigo que poderemos
designar de defesa da honra, igualmente violentíssimo, a que deu o nome “Repto”,
onde se dirigia ao autor do artigo, nos termos seguintes: “Ao caluniador
profissional, mascarado e anónimo que traiçoeira e miseravelmente tem tentado
denegrir as reputações mais sólidas; ao cobarde que, anavalhando na sombra a
honra alheia…”. O tom foi este até ao final.
Na edição de 23 de abril, Procópio de Oliveira,
diretor de O Nauta, escreveu na
primeira página do seu jornal, sob o título “Dr. Júlio”, um artigo em que dizia
que o visado “no exercício da presidência da câmara de Ílhavo, havia
demonstrado o seu leal e franco republicanismo”. Foram vários outros os elogios
feitos.
Quanto aos diretores do jornal Beira-Mar, que eram dois, Cesário da Cruz e Guilhermino Ramalheira,
também foram taxativos na sua tomada de posição. E assim na edição de 3 de maio
do seu jornal, os diretores escreveram que através daquela “campanha acintosa”
pretendiam “inutilizar um homem que de há anos, pelo seu talento, se tem
imposto à consideração da maioria da população ilhavense”.
Então qual o motivo que fez com que esta situação
não fosse parar ao Tribunal de Aveiro?
Foi basicamente um. O artigo que espoletou esta
polémica (anónimo), pese embora o facto de todos o interpretarem como sendo
dirigido a Júlio Calisto, era objetivamente dirigido a “Juliano Enguiçado”.
Começava assim: “O Dr. Juliano Enguiçado é um bacharel em leis…”. Ou seja, o
autor arranjou, para se eximir à responsabilidade criminal, um pseudónimo que, para
não restarem dúvidas, cuidou de aproximar gráfica e foneticamente do nome do
advogado ilhavense que era um opositor do Estado Novo e do status quo que governava a autarquia de Ílhavo, presidida por Diniz
Gomes.
Portanto, na base desta polémica, percebe-se,
estavam questões de natureza política.
A história que aqui vos deixámos, sendo uma história
de outro tempo, facilmente encontra similitudes nestes tempos de hipermodernidade
em que vivemos.
Esta cena e tantas outras cenas farão parte do
romance Um Republicano na Mira da Pide
que lançarei em Ílhavo no próximo verão.
Acácio Pinto
NOTA: Crónica publicada no jornal O Ilhavense de 01.05.2026
