Alberto Manguel: uma vida à volta dos livros

 

Alberto Manguel - nasceu em Buenos Aires em 1948.

O argentino Alberto Manguel, ou melhor, o cidadão do mundo Alberto Manguel esteve na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, nas 5.as de Leitura, no dia 30 de abril.

E para quem, como eu, lá foi para ouvir o escritor, rapidamente percebeu que Nuno Camarneiro, o moderador, começava a levar a conversa noutro rumo. Demos connosco, para início, em Israel, onde Manguel viveu a sua infância, pois o seu pai era ali o embaixador da Argentina. Depois saltámos para o seu país, para Buenos Aires, na adolescência e juventude, e de seguida para outros, muitos outros locais, pois tantos foram os poisos desta figura incontornável daquele país sul-americano.

E estou com isto a dizer que este fluir, esta interação, ficou aquém do esperado? Claro que não. Foi um trajeto diferente, mas igualmente recheado de conteúdos do escritor, do tradutor, do ensaista, afinal, do homem de cultura e de um bom contador de histórias.

Foi excelente, esta incursão pelos caminhos que a vida lhe foi tecendo. Foi deliciosa a abordagem que Manguel fez ao facto de ter sido leitor privativo, na sua juventude, de Jorge Luís Borges, um seu conterrâneo, que viu nele a pessoa indicada para lhe ler livros quando estava quase cego. Manguel trabalhava então numa livraria de Buenos Aires.

Mas um outro aspeto peculiar e logo a abrir, foi o da importância que ele atribuiu ao facto de ter sido a sua ama, uma mulher checa, a pô-lo em contacto com autores alemães, cujos textos, essencialmente poemas, ele decorava e começou a declamar. Quiçá, terá sido aí que se iniciou a sua paixão pelos livros, pela leitura e pela escrita.

Deixou, igualmente, algumas notas acerca da sua faceta de tradutor. E, com a sabedoria de quem sabe do que fala, disse à plateia que ali foi para o ouvir, que um livro traduzido não é mais do que uma outra (e diferente) versão do original, esta escrita pelo tradutor. Sustentou isso com a dificuldade que de facto existe, nesta função, em encontrar as palavras que melhor se adequem e correspondam ao pensamento do autor. Ele próprio, confessou, que, algumas vezes, alterou frases de tradutores de obras suas.

E a conversa fluiu por mais de uma hora em bom ritmo e com bons conteúdos, não sem uma passagem por Lisboa e pelo facto de Manguel, que doou a sua biblioteca pessoal à cidade, não deixar de dizer que já lá vão seis anos sobre tal doação mas a biblioteca nunca mais fica pronta.

— É como as obras de Santa Engrácia — confessou com um sorriso que alastrou à sala. — Doei uns quarenta mil livros e agora já serão uns cinquenta mil.

Valeu a pena, mais esta sessão? Com certeza.

Está de parabéns a Biblioteca Municipal da Figueira pelas 5.as de Leitura, que têm decorrido, sensivelmente, a um ritmo mensal, e o Nuno Camarneiro que tem conduzido estas últimas sessões.

Acácio Pinto

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