Biblioteca da Figueira da Foz: João de Melo foi o convidado das 5.as de Leitura

 


Gosto particularmente das 5.as de leitura que têm lugar na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, onde a um ritmo mensal, se conversa com um escritor.

Desta feita (21 de maio), o convidado foi João de Melo, que já leva 50 anos de carreira literária, e a Teresa Carvalho foi a moderadora.

Sim, tudo aconteceu a um ritmo muito elevado, em que o autor se centrou, sobretudo, nas memórias da sua vida e, quiçá, nos inúmeros ‘fantasmas’ de um tempo longínquo (quem os não teve/tem?), que, ainda hoje, o assolarão. É verdade que João de Melo nos pareceu em busca da felicidade, pelo menos em termos discursivos. De fechar portas. Mas as marcas da família, sobretudo do pai, da ilha de São Miguel, do seminário, da guerra, e sei lá eu que mais, ainda se sentiram. Ainda foram muito sonantes. Lastro, mesmo.

É verdade que as conversas fluem, porventura, é assim, deverá ser assim, e nessa liberdade de fluência, a conversa esteve muito centrada na vida, na sua vida. Na subida a pulso. No trilhar de caminhos, por vezes, sinuosos. No prémio internacional Cristóvão Colombo, que recebeu em Lima. Na correspondência que travou com Ferreira de Castro. No desempenho de funções diversas, como, por exemplo, de adido cultural em Madrid. Poderemos dizer que o foco esteve menos nos livros, todavia eles acabaram por estar lá. Estiveram em pano de fundo, que a moderadora não deixava perder pitada para fazer sobressair esse aspeto, o do romancista e contista, João de Melo.

Não o assumiu em pleno, mas percebeu-se que o escritor, mais do que em novos romances, está neste momento envolto numa odisseia, a de (re)escrever sobre aspetos e circunstâncias da sua vida (antiga) e sobre os quotidianos duros desta atualidade crua. Cruel, mesmo, em que nos movimentamos, hoje.

A Teresa Carvalho ainda o puxou para o seu livro, Novas Fases da Lua, em forma de diário, confrontando-o com esse não fazer nada dos escritores, pois que fazem tudo sentados, parafraseando o próprio ao invocar a criada de Alexandre Herculano, porém, o João de Melo, como livre-pensador, e com o verbo sempre à tona, não se deteve aí por muito tempo.

Vagueou pelos seus livros, pela descoberta do seu estilo próprio (a partir do romance O Meu Mundo Não é Deste Reino), pela ‘proscrição’ dos seus primeiros livros e pela sua saga de sempre estar a reinterpretar, a rever, a alterar em edições seguintes aquilo que escrevera. Com uma exceção: Gente feliz com lágrimas! Por ditame do editor e por conclusão do autor, mais de trinta anos após tê-lo escrito: isto não está mal!

Uma dúvida, essencial ou existencial, pouco importa a classificação: não estará o João de Melo, com palavras e títulos diferentes, é verdade, a escrever sempre sobre o mesmo tema? Ou a escrever sempre o mesmo livro?

Se a resposta (que não lobriguei) for afirmativa, não é o único. Muitos outros antes dele o fizeram! Muitos outros depois de nós o farão! É que, desculpem a assertividade, só o que nos inquieta nos inspira!

Dizia Kafka que a escrita de um livro “deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós".

Será isso, João de Melo?

Acácio Pinto

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