Uma história com marca da PIDE, nos 70 anos da Conferência de Jaime Cortesão
(Crónica publicada no Diário de Aveiro de 16.05.2026)
A PIDE vigiava tudo. Ou quase tudo. Porque, às vezes, também via mal.
Em maio de 1956, um agente destacado para acompanhar uma
iniciativa democrática em Aveiro produziu dois relatórios sobre o mesmo
acontecimento. No primeiro, registou com segurança quem presidira ao jantar do evento. No
segundo, teve de se desdizer.
A história passou-se nas comemorações da Revolução Liberal
de 16 de maio de 1828, que tiveram Jaime Cortesão como figura central, e que
este mês recordamos, 70 anos depois.
Vamos então à história.
Jaime Cortesão encontrava-se exilado no Brasil e veio a
Portugal a coberto de um passaporte diplomático emitido por aquele país.
Aproveitando a sua presença, os democratas aveirenses, com Mário Sacramento à
cabeça, convidaram o historiador de Ançã para ser a figura central dessas
comemorações.
Delineado o programa, Cortesão estaria em dois momentos: num
jantar de confraternização democrática, a realizar no restaurante Galo D’Oiro,
na noite de 16 de maio, e numa conferência alusiva aos Mártires da Liberdade, a
ter lugar no dia 17 no salão Aleluia.
Escalado para a ‘cobertura’ daquele programa, o agente n.º
118/111 [o nome é o que menos interessa] não se fez rogado e vai de dar nota,
aos seus superiores, de tudo quanto os seus olhos viram. Ou não!
No primeiro relatório narrou o que aconteceu no dia 16 de
maio de 1956. Falou da deposição de flores no obelisco da praça Dr. Joaquim de
Melo Freitas, da romagem ao Monumento aos Justiçados, no Cemitério Central de
Aveiro e, pois claro, do “banquete”
(não jantar de confraternização democrática). E, sobre este último, escreveu:
“Dada a posição onde nos encontrávamos, pois houve grande dificuldade de
entrada na sala do banquete não foi possível ouvir por completo os discursos”;
mas sempre refere que ouviu dizer “fim do
fascismo” e que intervieram o “Dr.
Manuel das Neves, que falou três vezes, Dr. Júlio Calixto, Virgínia de Moura e
Dr. Costa e Melo”.
E concluiu, perentoriamente:
“Às 20h30 estavam cerca
de 350 pessoas e a mesa do banquete era
presidida pelo Dr. Jaime Cortesão”.
Só que, pasme-se, afinal não foi o historiador que presidiu!
Quem presidiu foi o professor e escritor Tomás da Fonseca, de Mortágua.
E quem é que o diz? O mesmo agente, o inefável n.º 118/111,
no segundo relatório.
Diz quem interveio, quem estava na mesa e, quanto à assistência,
refere que devia “orçar 250 pessoas”
que se limitaram a bater palmas.
Mas não se ficou por aí. Conclui com estes termos:
“Cumpre-me retificar o
meu relatório [de ontem] sobre o
mesmo assunto, pois quem presidiu ao
banquete de confraternização efetuado no Salão de Festas do Cineteatro de
Aveiro foi o Dr. Tomás da Fonseca e não o Dr. Jaime Cortesão. Esta falta de
comparência do Dr. Cortesão causou desagrado à assistência”.
Nota: Esta e
outras histórias farão parte do meu romance UmRepublicano na Mira da PIDE, que será lançado em Ílhavo, no verão, e é
inspirado na vida do republicano Júlio Calisto.
Acácio Pinto
