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A propósito de camas quentes!

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  Chegam em carrinhas. Durante a noite. Mochilas às costas. Rostos fechados. E vão para caves onde se deitam, a monte, em enxergas ainda quentes da fornada anterior. Fecham os olhos e são acordados, pouco depois, sem terem tido tempo de dormir. Vão às latrinas a correr. É tempo de partir. De chegarem ao trabalho prometido. De se confrontarem com a dura realidade da nova vida que não é. O tempo passa. As estratégias não. As circunstâncias mudam. Os comportamentos não. Ontem eram os emigrantes portugueses ou magrebinos acamados e enlatados em bidonvilles nos arredores de Paris, de Marselha ou nos vinhedos de Sauterns. Hoje são imigrantes indianos ou filipinos atulhados em quartos bafientos de prédios soturnos; ou de contentores abrasivos no centro de Lisboa ou do Porto; ou nas profundezas de além Douro ou no Alentejo intensivo. De ontem sobraram trabalhadores à mercê de esquemas clandestinos falados em língua estrangeira e pagos com o suor do carregamento de baldes de argam...

Livro "O Volframista" foi apresentado em Penalva do Castelo

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  Com o auditório da Biblioteca Municipal de Penalva do Castelo cheio, o livro O Volframista , de Acácio Pinto , teve mais uma tarde de êxito. A abrir o evento, José Pedro Pinto interpretou, em guitarra clássica, um tema da sua autoria, criando um ambiente de grande envolvimento com os presentes, para logo de seguida Vítor Pires deixar, em traços pessoais, a sua leitura da obra, referenciando os aspetos principais da mesma, e deixando igualmente palavras sobre o autor. Efetuou ainda uma similitude entre o enredo do romance e as terras de Penalva do Castelo, mais particularmente, com a freguesia de Sezures, onde o volfrâmio também foi explorado, e onde ocorreram grandes convulsões sociais com as autoridades do Estado Novo, dizendo que a história do livro se poderia muito bem ter ali passado. Depois foi o autor a intervir, deixando aos presentes palavras sobre o processo de escrita do livro e sobre alguns dos factos sociais, económicos e políticos da época em que se passa a trama...

Crónica em três atos: emigração, Partido Socialista e leituras censuradas!

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  Quinta-feira, dia 19 de abril de 1973. 1. Era manhã cedo e o sol ainda não subira a linha do horizonte, vindo dos lados da República Democrática da Alemanha e da subjugada, desde 1968, Checoslováquia. Eram seis horas e naquela manhã, como na maioria delas, um ligeiro nevoeiro de fumo das inúmeras fábricas do complexo siderúrgico do Reno e do Ruhr, com humidade à mistura, iria impedir que o português António da Silva visse o sol brilhar, esplendoroso, como acontecia na sua aldeia da Beira Alta. Vivia com tantos outros seus compatriotas nos subúrbios de Colónia e estava a iniciar os rituais de mais um dia de trabalho, longe da sua família que ficara em Portugal. Almejava ganhar algum dinheiro para ter a vida digna que a agricultura, no seu torrão natal, lhe negara. Queria muito formar os seus filhos, construir uma casa e comprar um carro para passear na velhice. Tinha cinquenta anos e não queria andar na Alemanha muito mais tempo. Saltou da cama, lavou a cara, fez a barba com...

Texto de João Adelino Santos sobre O Volframista

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  [Esta apresentação teve lugar no auditório Carlos Paredes em Vila Nova de Paiva, no dia 16 de abril de 2023.] Antes de mais, começo por agradecer honradamente o convite para este empreendimento, a apresentação de um livro. Espero, sinceramente, estar à altura das expectativas, por se tratar de uma experiência nova. Após a vinda a público de “O Volframista”, já muitos se pronunciaram sobre esta obra de ficção, dificultando um pouco mais esta tarefa, no sentido de evitar repetições e aportar algo de diferente. Espero que o consiga! Nada melhor do que começar por enquadrar a obra com referências que surgem no seu final. Na página 161, podemos ler: “Ali estavam, então, dois jovens, bisnetos de um ascendente comum. Descendentes de um cidadão luso que, nos anos quarenta do século XX, se deslumbrou, na sua terra, pela riqueza fácil e se perdeu nos emaranhados dos negócios de um minério que marcou uma época em Portugal e no mundo. ” A narrativa desenrola-se, assim, nos anos quare...

Houellebecq, um romance que deixa um travo de beleza perante a dureza da vida

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  Polémicas à parte sobre Michel Houellebecq, o que é facto é que, com este seu livro  O mapa e o território , este autor francês, considerado um dos mais importantes escritores europeus deste século, nos acicata em cada página a acelerar o processo de leitura. A querer conhecer mais e mais depressa a trama que o autor urdiu. Bem sei que ele nos confronta com solidão, com amores mal sucedidos, com temáticas, quiçá, politicamente incorretas (signifique isso o que significar), com uma forte e permanente ironia à sociedade francesa (ou à sociedade em geral). Bem sei que a polémica esteve bem acesa pela metodologia romanesca utilizada neste romance – veracidade dos nomes dos lugares, de pessoas, de sites, de jornais, de artistas, de amigos, da sua editora – ao ponto de nos confrontarmos com uma grande sobreposição de muitos detalhes reais; ou não será que, muitas vezes, a realidade mais parece uma ficção? Digam o que disserem, e os críticos foram e são muitos, Michel Houelle...

Apresentação do livro O Volframista aos alunos do 8º e 9º anos da Escola de Ferreira de Aves

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  Teve lugar, nesta terça-feira, dia 28 de março, integrada na semana da leitura, a apresentação do livro O Volframista, na Biblioteca Escolar de Ferreira de Aves. O autor, Acácio Pinto, e a professora de português, Ângela Silva, a convite do coordenador do estabelecimento, Albano Aguiar, e da professora bibliotecária, Cristina Coelho, apresentaram aos alunos do oitavo e nono anos a obra nas suas vertentes espácio-temporais e de análise psicológica de algumas personagens. No final foi aberto um período de interação com os alunos presentes. Recorde-se que a obra O Volframista foi a vencedora do prémio literário Cónego Albano Martins de Sousa de 2022, promovido pela Câmara Municipal de Sátão. Do livro, na contracapa, a diretora do Agrupamento de Escolas de Sátão, Helena Castro referiu que “é claramente um romance de época, com um forte enraizamento local, onde facilmente relacionamos pessoas e lugares” e o professor Carlos Paixão referiu “o autor soube agarrar num tema de rea...

Análise, em jeito de carta, do professor Fernando Amaral sobre o livro O VOLFRAMISTA

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  Caro e ilustre escritor, Para início deste texto sublinho o seguinte: sendo eu um conhecedor e admirador da tua escrita, o facto de teres ganhado o prémio literário não me apanhou assim de forma tão surpreendente. Acho que foi uma consequência normal da tua entrega à escrita, e era naturalmente uma questão de tempo. É realmente uma obra com grandes mudanças no plano temporal, o uso de analepses (e prolepses) são uma constante, como se pode constatar desde o início até ao fim do texto. O trama narrativo começa na final do euro de futebol, no dia 10 de julho de 2016 e vai até ao passado de 1961, através do reencontro dos cunhados. Depois faz-nos regressar até 1944 – a fuga de Abel Fernandes para França (personagem principal), e de seguida recua até ao seu longínquo ano de nascimento – 1916. No capítulo 4o o narrador situa-nos em 1940, e no 10o faz-nos ir até julho de 1941. O capítulo 13o simboliza o azar, a grande viragem na vida de Abel. A bonança, esfumada no charuto, dá ...