Crónica em três atos: emigração, Partido Socialista e leituras censuradas!

 


Quinta-feira, dia 19 de abril de 1973.

1. Era manhã cedo e o sol ainda não subira a linha do horizonte, vindo dos lados da República Democrática da Alemanha e da subjugada, desde 1968, Checoslováquia. Eram seis horas e naquela manhã, como na maioria delas, um ligeiro nevoeiro de fumo das inúmeras fábricas do complexo siderúrgico do Reno e do Ruhr, com humidade à mistura, iria impedir que o português António da Silva visse o sol brilhar, esplendoroso, como acontecia na sua aldeia da Beira Alta.

Vivia com tantos outros seus compatriotas nos subúrbios de Colónia e estava a iniciar os rituais de mais um dia de trabalho, longe da sua família que ficara em Portugal. Almejava ganhar algum dinheiro para ter a vida digna que a agricultura, no seu torrão natal, lhe negara. Queria muito formar os seus filhos, construir uma casa e comprar um carro para passear na velhice. Tinha cinquenta anos e não queria andar na Alemanha muito mais tempo.

Saltou da cama, lavou a cara, fez a barba com a sua máquina elétrica, em Portugal fazia-a à navalha, tomou um pequeno-almoço aportuguesado, igual ao de todos os dias, café com leite migado com pão e saiu de casa. O comboio passava às 7:02 na estação, que distava um quilómetro da sua residência. Depois era uma viagem curta, de escassos quinze minutos, até à fábrica onde trabalhava. Tinha de franquear as portas da siderurgia antes das 7:30 para, depois de se equipar com um fato-macaco, umas luvas, uns óculos de proteção, um capacete, e umas botas, estar apto a pegar ao trabalho às oito horas, para substituir o operário magrebino que fizera o turno da noite.

2. A menos de cem quilómetros de Colónia, em Bad Münstereifel, às dezoito horas, Mário Soares e os demais 26 socialistas aplaudiam de pé a deliberação de fundação do Partido Socialista. Com vinte votos a favor e sete votos contra acabava de ser tomada a decisão de transformar a Acção Socialista Portuguesa (ASP) em Partido Socialista (PS), o partido que haveria de vir a ser sufragado como o partido mais votado nas primeiras eleições livres, no pós 25 de abril de 1975.

Também eles tiveram de fugir de Portugal. Tiveram de se esconder das garras do regime de Caetano, que sucedera a Salazar, e dos olhares perscrutadores da PIDE para se reunirem livremente. Também eles demandaram a Alemanha de Willy Brandt, naquele dia, para se organizarem em prol de um combate que se impunha travar no seu país. De uma luta antiga que teimava em não ter retorno e em devolver a liberdade ao “Portugal Amordaçado”.

3. A dois mil quilómetros de distância de Bad Münstereifel, numa recôndita aldeia do interior de Portugal, naquela quinta-feira, um jovem andava a ler, às escondidas, a “Velhice do Padre Eterno”. Um livro que os censores baniram da circulação comercial e os olheiros do regime tinham na sua checklist. Era um livro de Guerra Junqueiro, escrito no final do século XIX e que era considerado anticlerical e, como tal, o Estado Novo tinha-o proscrito.

“O Melro”, uma das inúmeras sátiras incluídas no livro, foi devorada por aquele jovem, na cama, naquela noite. À mãe, que o interpelara com o facto de a luz estar ainda acesa por volta da meia-noite, acabara por mentir, dizendo que estava a estudar para o teste de História que iria ter ao outro dia. Aquele poema que era, ainda hoje é, um magnífico texto sobre a liberdade, rezava assim nos seus primeiros versos:

 “O melro, eu conheci-o:

Era negro, vibrante, luzidio,

Madrugador, jovial;

Logo de manhã cedo

Começava a soltar, de entre o arvoredo,

Verdadeiras risadas de cristal.

E assim que o padre-cura abria a porta

Que dá para o passal,

Repicando umas finas ironias,

O melro dentre a horta

Dizia-lhe: “Bons dias!”

E o velho padre-cura

Não gostava daquelas cortesias (…).»

O livro – os livros que aquele jovem, de treze e depois catorze anos, lera clandestinamente – fora-lhe emprestado pelo seu primo que morava do outro lado da rua e tinha ligações à oposição. Desde Guerra Junqueiro a Aquilino Ribeiro, de Tomás da Fonseca a Ferreira de Castro e de Araújo Correia a João Ilharco, foram vários, vários os livros lidos na sombra da noite, por entre as vozes da liberdade, às vezes entrecortadas, vindas pelas ondas curtas de uma rádio que emitia clandestinamente do estrangeiro

Mais tarde, dez anos mais tarde, em maio de 1983, esse jovem iria aderir ao Partido Socialista.

Acácio Pinto | 01.05.2023

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