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Análise, em jeito de carta, do professor Fernando Amaral sobre o livro O VOLFRAMISTA

 


Caro e ilustre escritor,

Para início deste texto sublinho o seguinte: sendo eu um conhecedor e admirador da tua escrita, o facto de teres ganhado o prémio literário não me apanhou assim de forma tão surpreendente. Acho que foi uma consequência normal da tua entrega à escrita, e era naturalmente uma questão de tempo.

É realmente uma obra com grandes mudanças no plano temporal, o uso de analepses (e prolepses) são uma constante, como se pode constatar desde o início até ao fim do texto. O trama narrativo começa na final do euro de futebol, no dia 10 de julho de 2016 e vai até ao passado de 1961, através do reencontro dos cunhados. Depois faz-nos regressar até 1944 – a fuga de Abel Fernandes para França (personagem principal), e de seguida recua até ao seu longínquo ano de nascimento – 1916.

No capítulo 4o o narrador situa-nos em 1940, e no 10o faz-nos ir até julho de 1941.

O capítulo 13o simboliza o azar, a grande viragem na vida de Abel. A bonança, esfumada no charuto, dá lugar à tempestade, corporizada na destruição da sua casa palacete. É a derrocada final. O regresso de Abel à sua velha habitação, após a destruição da sua casa eletrificada (10-1944), devorada pelas “chamas incansáveis”, é o retorno à sua vida de pobreza. Como se infere do texto, já no verão de 1942 a miséria espreitava, quando o filão da mina se tornou menos rentável, lançando assim para o desemprego três dezenas de operários.

A velocidade estonteante do advento da miséria foi, apesar de tudo, mais célere que a da riqueza, como se pode ver na cena do incêndio da casa apalaçada. A ascensão e a decadência sempre andaram muito próximas, de mãos dadas, como se comprova nesta fascinante obra literária.

No fim impera a harmonia familiar com o enlace matrimonial (2017) de Jorge e Bernardette, que iniciam e acabam o enredo da obra, desembocando assim na reunificação parental.

Durante a obra vivem-se tempos de ostentação e miséria, que convivem lado a lado. Nasceu uma espécie de pequena burguesia com o surgimento desta neo-revolução industrial, que explora este o ávido proletariado emergente.

O livro retrata um tempo vivenciado por muitos de nós, a imigração clandestina – a salto, as licenças para tudo e por nada; o aparecimento de invenções que mudaram para sempre a vida das pessoas, nomeadamente a eletricidade nas aldeias, a rádio, a televisão, os carros, as camionetas, etc. É um livro que nos traz à memória a nostalgia da infância de cada um de nós, esse tempo onde fomos felizes, como nos é recordado na obra, através da hábil “montagem” do cepo, que fumegava desde o natal ao ano novo.

É um romance histórico, desenvolve a sua ação durante o Estado Novo com as suas marcas, a repressão, o medo, a distribuição do bodo, a PVDE, etc, como também pode ser um romance de espaços ou de personagem.

A linguagem na obra é fluente, empolgante, descomplexada, macia, aveludada, viva, assertiva, nua e crua, ao estilo do autor, com fino recorte técnico tanto na forma como no conteúdo, resultado da arte de bem escrever do autor e do seu ingente trabalho de investigação.

O texto dá-nos um entrelaçamento de linguística magistral, que o torna ainda mais robusto e belo, verificável através de muitos e variados recursos: a força do Verbo (Metáforas), “A palavra mãe incendiou Gaspar…”(67); “- o dinheiro é o deus da terra, Abel” (86); “…nunca antes lhe martelara na cabeça como agora…”(86); “…desaguaram em Paris para…”(144); “ A todos untava regularmente com notas de quilo” (137). Personificações, “…a sofreguidão das chamas incansáveis… a ira do fogo.”(123); “…rio, que corria preguiçoso…”(143). Expressões populares, “…sem que se saísse da cepa torta.”(65); “Vozes de asno não chegam ao céu!”(66); “…lhes chegavam aos calcanhares..”(114); “Era mesmo dar-lhe com um gato morto até miar”(124); … “não viam o fundo à panela.”(138). Língua popular, “Estão todos arrumados”(19); “…incendiou o pitról…”(125). Ditado popular “Se queres conhecer o vilão, mete-lhe o pau na mão”(84), etc…Estas e outras figuras de estilo são muito frequentes ao longo do livro.

Para terminar saliento que “O Volframista” é um texto bem enredado, fascinante, envolvente, que retrata um tempo de um país e de uma região, e nos vai agarrando fervorosamente ao longo da sua leitura. Um texto escrito com muito rigor, nele não encontrei erro algum, com um retoque pessoal do autor, verificável nos muitos e deliciosos diálogos.

Parabéns!

Fernando Amaral (Professor de Português no Agrupamento de Escolas de Sátão)

Nota: O autor da obra agradece, penhoradamente, as magnificatórias palavras e informa que as páginas referenciadas correspondem às da 1ª Edição do livro.

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