O tempo tudo consome, de tudo se alimenta. É mesmo inexorável
na sua gula de tudo arrastar para esse poço triturador de todos os factos. Para
essa espécie de buraco negro em que tantas coisas se perdem, mas em que,
dessas, tantas e tantas sempre se encontram.
Dá-se assim como que uma lenta subducção das dores e dos
amores, dos ruídos e dos silêncios, das derrotas e das euforias, para um
território em que acontecem todas as fusões e depois se organizam segundo a
matriz e a força com que cada um desses factos nos marcou.
E as audiências que hoje fazemos a essas memórias podem
trazer-nos imagens distorcidas? Se podem, devido a quê? À carga psicológica com
que cada um de nós as viveu, ou a artificialismos de contexto?
Vejamos estas duas perspetivas, quando já lá vão 40 anos
sobre o 25 de abril.
1. Eu tinha 15 anos, nesse tempo. Vivia numa aldeia, em Rãs,
e não me chegavam muitas notícias da política. O meu primo Gaspar era o único que me falava contra o Salazar e me
emprestava livros de Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Guerra Junqueiro,
Tomás da Fonseca e Araújo Correia, entre outros.
Mas há uma memória perfeita de muita dessa realidade que não
esqueço. Que em 1974 andava a estudar no colégio de Aguiar da Beira e que no
dia 25 de abril entrei na carreira com a mala dos livros numa mão e o cesto de
vime na outra, com a comida que a minha mãe havia preparado bem cedo. Era assim
todos os dias.
E bem me lembro que para eu e o meu irmão estudarmos o meu
pai teve que emigrar para França pois que as propinas, trimestrais, não eram
acessíveis aos rendimentos da maioria dos portugueses. Não havia igualdade de
oportunidades no acesso à educação. As escolas do estado resumiam-se às
capitais de distrito e pouco mais.
Restavam os colégios privados, este criado pelo padre
Fonseca, que cumpriram uma importante função alijada pelo estado.
2. Durão Barroso fez, há dias, no liceu Camões, em Lisboa, a
apologia da educação de antigamente, das virtualidades da escola anterior à revolução.
Desse escola, como sendo de todos os méritos.
Como é que é possível que a memória de Durão Barroso lhe
traga esta visão das coisas?
Ah, se ele tivesse calcorreado descalço, por exemplo, os
granitos da beira alta!
Quando se quer artificializar a realidade, dá nisto!
Nota: Curvo-me perante todos aqueles que deram
corpo ao 25 de abril de 1974.
Acácio Pinto
Diário de Viseu