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Andávamos há alguns meses para visitar as ruínas das minas
de volfrâmio de Rio de Frades e de Regoufe, situadas no concelho de Arouca, em
pleno maciço montanhoso da Arada e da Freita.
E lá fomos, neste mês de agosto, optando por um trajeto a
partir de São Pedro do Sul, preparados para as constantes subidas e descidas
por estradas estreitas e com os precipícios a acompanharem-nos ora à direita
ora à esquerda.
A verdade é que a aventura compensou. As paisagens são
idílicas e os horizontes, lá do alto, até onde a vista alcança, com tantas
serras e vales pelo meio, esfumam-se numa bruma longínqua em que a separação
entre o céu e a terra se torna indecifrável.
Depois temos lá no fundo – as minas de Rio de Frades ficam
lá bem no fundo – as ruínas de uma exploração mineira que ainda hoje se
adivinha ter sido de grande envergadura.
Em Rio de Frades a envolvente é avassaladora. Sentimo-nos
engolidos pela natureza, sentimo-nos apertados entre escarpas verticais, cujo
limite superior não se descortina, sentimo-nos encurralados num vale onde o
volfrâmio falou mais alto nos tempos da Guerra. Ali estão as ruínas dos
edifícios das minas, da produção de eletricidade, das lavarias, ali está o
túnel escavado no xisto para atravessar aquele monte e, do outro lado, ali
estão as cascatas da água cristalina e virgem que jorra lá do alto.
Sem vontade de partir, pois apetece continuar por ali,
naquele silêncio redentor, partimos até Regoufe, mesmo do outro lado do monte,
mas tão longe para se lá chegar.
Subimos, subimos de novo e as estradas voltam a exigir toda
a nossa atenção, para que ao mínimo descuido não tenhamos o diabo à perna! E
chegados ao alto, já com o São Macário à ilharga, começámos nova descida, menos
acentuada, até sermos novamente surpreendidos com edificações, tantas, em
ruínas, qual paisagem lunar! E se a envolvente é menos escarpada, lá estão, tal
como em Rio de Frades, bem visíveis as cicatrizes das múltiplas ‘cesarianas’
para aceder ao minério negro que estas mágicas montanhas tinham (e têm?) no seu
ventre, destinado a alimentar as indústrias de armamento durante a Segunda
Guerra Mundial.
São dois santuários, dois monumentos inilidíveis, com
memórias vivas, o primeiro, de Rio de Frades, foi explorado pelos alemães e o
segundo, o de Regoufe, pelos ingleses.
“As minas de Rio de Frades, nesse tempo, eram como uma
cidade!”
“As Minas de Rio de Frades, nesse tempo, eram como uma
cidade” – disse-nos a senhora Alice que encontrámos sentada à porta do seu AL
(alojamento local) Casa do Volfrâmio.
Quem diria que ali, naquele-fim-do-mundo, naqueles confins
daquelas serras da Arada e da Freita, iríamos encontrar a senhora Alice! Foi
uma dádiva podermos ter falado com ela! Deu-nos coordenadas e falou-nos de histórias,
de muitas histórias de volfrâmio e de volframistas, de muitas histórias que os
seus pais viveram na primeira pessoa.
Está claro, oferecemos-lhe um exemplar do livro, O
Volframista, um romance histórico que teria ficado mais rico caso o autor
tivesse tido este encontro antes da escrita da obra.
Mas em Regoufe sente-se, igualmente, ‘a cidade’ que foi
nesses idos tempos. Aqui foi um pastor, que apascentava as suas ovelhas, que
nos falou dos edifícios e das funções de cada um deles.
“Ali eram as lavarias, depois os escritórios, além eram as
casas dos mineiros, lá em cima era um moinho de vento para moerem o grão, além,
está a ver, era uma das entradas da mina, essa casa aí era dos chefes…” –
contou-nos ele, enquanto as suas ovelhas, com o sol a poente, debicavam as
pontas de alguma erva mais tenra.
Não lhe perguntámos qual era a sua graça, mas estava visível
nos seus olhos a melancolia de um tempo de agitação que ali existira e que ele
sabia que não mais regressaria.
“Agora cultivamos milho, está a ver lá em baixo? e vamos
criando umas ovelhas e cabras”.
“Votos de saúde” – desejámos-lhe nós.
Respondeu-nos, rendido ao fatalismo da sua vetusta idade e,
percebemos, da doença: “Isso era mesmo o que eu mais precisava”.
Aventurem-se, pois, e visitem estás imponentes montanhas da
Arada e da Freita. Para além do colosso de beleza dos dorsos daqueles montes
vestidos com carqueja, urze e queiró e onde o sol e sombra das vertentes dos
vales nos arrebatam, podem também encontrar vozes doces da serra, como sejam as
destes nossos dois interlocutores, em Rio de Frades e em Regoufe.
Está claro que, para restabelecer a energia nestas serranias
mágicas, o almoço só pode ser posta arouquesa. As ofertas são inúmeras e o
produto é criado ali, naqueles montes, vindo daquelas vitelas-sem-condutor com
que inevitavelmente nos deparamos numa das inúmeras encruzilhadas mais altas da
serra.
Marquem na vossa agenda: Rio de Frades e Regoufe, nas serras
da Arada e da Freita e deliciem-se!
LIVRO RELACIONADO COM ESTE TEMA: O VOLFRAMISTA