Quando os leitores querem fazer a rota dos romances

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Há experiências que nos ficam na memória de uma forma muito especial. E a que vivi no passado dia 26 de setembro foi, para mim, uma dessas experiências.

Tive o enorme gosto de acompanhar 23 leitores espanhóis do Clube de Leitura “Leituras à Volta da Mesa”, de Salamanca, numa jornada a que deram o nome de “Rotas literárias portuguesas inspiradas nos livros O Volframista e O Leitor de Dicionários”.

Foi um magnífico dia pelos lugares que deram corpo e inspiração aos dois romances. Mas, sobretudo, foi um dia de encontro, de partilha e de diálogo em torno dos livros e das histórias que neles se contam.

A manhã foi dedicada a O Volframista. Começámos na Queiriga, concelho de Vila Nova de Paiva, com uma visita à exposição fotográfica “Queiriga, Terra de Minas e de Mineiros”, que nos transportou para um tempo em que a exploração do volfrâmio marcou profundamente a vida desta comunidade.

Depois, seguimos para as minas do Rebentão, no Couto Mineiro de Lagares. Ali, nas galerias, onde houve intensa exploração mineira dos anos 40 e 50 do século XX, foi possível falar de volfrâmio (ouro negro), das condições de vida e de trabalho dos mineiros e, naturalmente, de Abel, a personagem principal do romance, e da sua experiência naquele universo.

Foi particularmente interessante poder mostrar aos leitores os lugares concretos que estiveram na génese da narrativa e ajudá-los a compreender melhor o ambiente em que a personagem viveu.

A tarde levou-nos a Viseu, para percorrermos alguns dos caminhos de O Leitor de Dicionários.

Começámos na atual Escola Secundária Alves Martins, antigo Liceu Nacional de Viseu, onde Alberto estudou nos anos 60 e onde viria a ser professor de clássicas logo após o 25 de Abril de 1974.

Dali, caminhámos pelo Parque Aquilino Ribeiro, passámos junto ao conhecido “arranha-céus” e ao Hotel Grão Vasco, até chegarmos à Pastelaria Horta.

Quem leu o romance sabe que foi nesse percurso que começou a acontecer o namoro entre Alberto e Felismina. Um encantamento que nasceu, em boa medida, da linguagem erudita que ambos utilizavam, das conversas sobre o bispo Alves Martins, sobre História e sobre as línguas clássicas. A linguagem, afinal, também pode exercer atração e sedução entre duas pessoas, não só a beleza.

Ao longo do dia, foram muitas as perguntas que me colocaram. Perguntas concretas sobre a trama, sobre as personagens, sobre os episódios narrados, sobre o que aconteceu realmente e o que pertence ao território da ficção. Conversámos, igualmente, sobre os contextos históricos que enquadram os dois romances e sobre a forma como a realidade e a imaginação se cruzam na construção de uma narrativa literária.

E foi precisamente aí que senti uma das maiores alegrias desta experiência: poder conversar com leitores que não só leram os meus livros, como quiseram conhecer os lugares onde as histórias aconteceram.

É difícil explicar a satisfação que um autor sente quando percebe que as suas personagens e os seus mundos ficcionais ultrapassaram as páginas dos livros e despertaram nos leitores a vontade de viajar até aos lugares que os inspiraram.

Aos 23 leitores do clube “Leituras à Volta da Mesa”, de Salamanca, deixo, por isso, o meu profundo agradecimento. Pela leitura atenta, pela curiosidade, pelas perguntas, pela generosidade das palavras e, sobretudo, por me terem proporcionado este dia tão especial.

Obrigado por terem trazido os meus livros até aos lugares onde nasceram. E obrigado por me terem permitido percorrer esses lugares convosco, agora enriquecidos pelo vosso olhar e pelas vossas leituras.

Foi uma experiência fantástica. Daquelas que nos lembram que a literatura não termina quando fechamos um livro. Às vezes, é precisamente aí que começa uma nova viagem.

Até um dia na vossa terra, amigos de Salamanca!

Acácio Pinto

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