Frontal, genuíno, prestável: era assim o António Figueiredo Pina!

 


Conheci-o no final dos anos 70. Trabalhava numa loja comercial, onde se vendia de tudo um pouco. Numa loja localizada na rua principal de Sátão, nas imediações do Foto Bela e do Café Sátão. Ali bem ao lado da barbearia, por Garret conhecida, e em frente da Papelaria Jota.

Depois, ainda na rua principal, deslocou-se para o cruzamento de Rio de Moinhos, onde prosseguiu a sua atividade e onde se consolidou como comerciante de referência. Onde lançou e desenvolveu a marca que era conhecida em todo o concelho, a Casa Pina, recheando a sua loja de uma multiplicidade de ferramentas, tintas e artefactos.

Sim, falo do António Figueiredo Pina. Do Pinita, como era tratado por tantos amigos e com quem estive, há cerca de um mês e meio, em sua casa. Conheceu-me e eu senti-me reconfortado, conforto que, naquele momento, creio que foi recíproco.

- És o Acácio - disse, olhando-me nos olhos. Olhar que gravei e que guardo!

Quem nunca entrou na sua loja para comprar fosse lá o que fosse? Naquele bazar de ilimitadas miudezas e utilidades para casa ou para o jardim? Onde se vendia avulso, ao metro ou ao quilo, nestes tempos de embalagens formatadas? Onde a sustentabilidade era uma prática quotidiana, dando-se uso às folhas das listas telefónicas para embrulhar parafusos, camarões ou sei-lá-eu-mais-o-quê?

Afinal, quem não conhecia o Pina? Quem não guarda a sua figura tão característica na memória? A sua presença bem-humorada e, tantas vezes, a sua cortante ironia? Quem se não lembra do seu rosto observador e do seu característico bigode? Também, da sua teimosia em tantos temas do quotidiano? Quem nunca o viu numa acalorada tertúlia sobre a espuma dos dias à porta da sua loja?

Sim, é que a sua loja não era, apenas e tão só, um mero comércio. Era muito mais do que isso. Era também um ponto de encontro. Um espaço de debates.

E diga-se, eram muitos os que tiravam senha diária para ali passarem algum do seu tempo. Em cavaqueira. Para ali abrirem os sacos de tantas conversas recalcadas.

À segunda-feira, era sempre sobre futebol e aí o Pina nunca transigia na sua paixão pelo Sporting. Aos outros dias os temas eram múltiplos. Das caçadas às pescarias e da política - com a sua costela socialista - ao tempo. De tudo se falava por entre o atendimento de um cliente ou de uma ida ao ‘setecentos’ tomar um café ou comer um petisco e beber um copo.

Frontal, genuíno, prestável, o Pina também se entregou a causas associativas e humanitárias. Os bombeiros que o digam. Ali serviu tantos anos.

Partiu. Os amigos, os nossos amigos, afinal, também partem, também nos deixam. E partindo do nosso convívio deixam-nos um espaço vazio. Contudo, embora partindo, também ficam, nunca deixam de nos acompanhar. De continuar a caminhar connosco, enquanto a nossa memória não nos trair.

Um abraço solidário e de amizade para a Deolinda, para os filhos e para todos os familiares.

Acácio Pinto 16.07.2024