Crítica DÃO E DEMO
***
(Vale a pena)
Star Wars: The Force Awakens (2015) | Daisy Ridley, John Boyega,
Oscar Isaac | Realizado por J.J. Abrams | 135 min.
Por: José Pedro Pinto
Os receios afinal não tinham razão de ser: O Despertar da
Força é o primeiro filme em 32 anos a merecer o nome Star Wars, e se foi
preciso a Disney comprar a Lucasfilm por quatro mil milhões de dólares para
podermos voltar a ver o Han Solo em ação, foi bem gasto. J.J. Abrams não só
ultrapassou tudo o que tinha feito até aqui, como fez o impensável: o filme não
só não desilude, como merece comparação com os filmes da trilogia original que,
no meio do barulheira dos fãs, é fácil esquecer que são dos melhores filmes
alguma vez feitos. É claro que não é tão bom como esses, nem seria de exigir
tal coisa, mas é um belíssimo filme mesmo para quem nunca os viu, e uma
maravilha para quem os conhece.
BB-8, um pequeno dróide com uma personalidade excêntrica,
tem na sua posse planos que podem determinar o resultado da guerra entre a
Resistência e a Primeira Ordem. Deambulando pelo deserto, acaba por dar com Rey
(Daisy Ridley), uma órfã destemida que lhe inspira confiança, e com quem fica
até ter a oportunidade de deixar os planos nas mãos certas. Quando a Primeira
Ordem descobre a localização do dróide, a jovem vê-se inesperadamente envolvida
numa guerra que ainda não entende. É certo que a premissa dificilmente poderia
ser mais semelhante à do Star Wars – Uma Nova Esperança (1977), o filme que
começou a saga, mas é tratada com uma frescura que invalida qualquer comentário
negativo que possa fazer nesse sentido. Entretanto, o Stormtrooper FN-2187
(John Boyega) começa a questionar-se se está do lado certo da guerra depois da
sua primeira missão sob o comando de Kylo Ren (Adam Driver), na qual lhe foi
ordenado que executasse os habitantes de uma aldeia cheia de inocentes. Durante
essa missão, a Primeira Ordem capturara Poe Dameron (Oscar Isaac), um exímio
piloto da Resistência, e FN-2187 decide soltar o rebelde e fugir com ele,
passando a ser procurado por traição. Por coincidência (ou por ação da Força),
FN-2187, rebatizado de Finn, dá por si a ajudar Rey a escapar aos seus antigos
companheiros, a bordo de um velho monte de sucata voador – a nave Millennium
Falcon – que rapidamente é capturada pelos seus antigos donos – Han Solo
(Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew). Juntos, tentam levar os planos à
Resistência, para que esta possa encontrar um mítico guerreiro que ajudara a
vencer as forças do Lado Negro décadas antes, e que estava desparecido há
muitos anos – Luke Skywalker.
Admito que não estava convencido em relação à escolha de
J.J. Abrams como realizador. Não havia dúvidas quanto à sua capacidade como
produtor de projetos de grande porte, como provara com Perdidos (2004-2010),
Missão Impossível 4 e 5, e principalmente com o seu reboot do Star Trek (2009).
Mas nos poucos filmes que realizou, mostrara frequenemente que a sua excelência
técnica era incapaz de impedir que os filmes fossem maçadores. No Super 8, o
único filme dele antes deste que não me aborreceu (e o único escrito e
realizado apenas por ele), mostrava a mesma excelência técnica, e a capacidade
de nos dar personagens pelas quais podemos torcer, mas uma infeliz tendência a
diferenciar tanto as cenas íntimas das cenas de ação, que às vezes pareciam
tiradas de dois filmes diferentes, um deles bem melhor que o outro. Nenhum destes
problemas estão presentes n’O Despertar da Força. A excelência técnica está
intacta, as cenas de ação fluem das cenas mais calmas, e o filme não é maçador
por um momento que seja.
No que toca aos atores, há muitas parecenças com os filmes
originais. Logo a começar pela decisão de escolher dois atores desconhecidos –
Daisy Ridley e John Boyega – para
interpretar os protagonistas, tal como Carrie Fisher e Mark Hammil o
eram antes de interpretarem Leia e Luke Skywalker. Esses mais antigos não
fizeram nada de memorável depois desses papéis, o que de certa forma ajudou a
solidificar o estatuto mítico das personagens; veremos o que será feito destes
novos – o potencial para boas carreiras está lá, sem dúvida. Outra coisa que é
recuperada dos originais é Han Solo, e aí o crédito vai para Harrison Ford. É
espantoso que nos consiga dar o mesmo Han que apresentou há 38 anos, como se
nunca tivesse deixado de o ser. Há quem diga que Harrison Ford é o Han Solo em
todos os papéis que faz, e que na verdade o Han Solo é o Harrison Ford. Talvez,
mas neste caso não me interessa – temos o verdadeiro Han de volta.
Infelizmente, não acho que possa dizer o mesmo de Carrie Fisher – pelo menos
neste filme, a magia de Leia não estava lá. Ainda outra semelhança com o
original: o vilão mascarado de respiração pesada, que se veste de negro e usa
uma capa. Quando tem a máscara posta, é absolutamente convincente como uma
ameaça, como um inimigo a temer; quando a tira, é o Adam Driver, com a sua cara
de tonto (nada contra o ator, só contra o casting). Pode ser que o papel lhe
assente melhor na sequela, agendada para 2017.
Poderá O Despertar da Força ter o mesmo impacto cultural que
o Uma Nova Esperança? Não, mas é sem dúvida um Star Wars que criará novos fãs.
Durante a sessão a que assisti, de tempos a tempos, uns senhores desceram as
alas da sala, e não voltaram mais – quatro, no total. Estranhei, mas presumi
que estivessem a ver um filme diferente do que o que eu estava a ver. No fim do
filme, o tema glorioso de John Williams (que já não me há-de sair da cabeça
durante uns dias) trovejava pelas colunas, acompanhando uma cena final
absolutamente satisfatória e cheia de promessa para o que aí virá; mas assim
que cortou para os créditos, logo mais uns quantos senhores e senhoras passaram
por mim, de ambos os lados, descendo as alas em direção às saídas. Agora sim,
tinha a certeza que não tinham estado a ver o mesmo filme que eu. Os créditos
continuaram, e passou uma família – um miúdo de uns nove ou dez anos e,
presumo, os pais. O miúdo, em vez de ir para a saída, separou-se dos pais,
continuou sozinho a descer a ala até ao fundo, e foi-se sentar na primeira
fila, onde ficou a olhar para os créditos a correrem; o pai juntou-se a ele
pouco depois. Às tantas, o rapaz viu um filme ainda melhor do que o que eu vi –
quem sabe se não viu o Star Wars que o pai terá visto com a idade dele.
(Foto: collider.com)
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