Avançar para o conteúdo principal

[opinião] Programa da coligação para a educação: Uma escola pública pobre, para pobres!

Já não restam dúvidas de que a marca identitária e indelével do programa da coligação de direita é a da privatização dos pilares estruturantes e fundacionais do estado social: educação, saúde e segurança social.
Depois da privatização dos setores económicos estratégicos, agora é a investida final e despudorada à privatização destes serviços, tão só os responsáveis por conferirem equidade aos cidadãos na sua acessibilidade, independentemente dos rendimentos de cada um.
A estratégia utilizada para consumar esta saga é a da generosa expressão “liberdade de escolha”.
Mas detenhamo-nos na questão da educação, onde a privatização já está em velocidade cruzeiro, como se viu recentemente através do aumento da contratualização de novas turmas para o privado. Aí já o Estado aumentou a sua despesa em 53 milhões de euros para o próximo ano letivo, independentemente de existirem na área de influência escolas públicas com vagas e com recursos humanos disponíveis.
Com este modelo, o da “liberdade de escolha”, o que teremos, nas áreas urbanas (onde há mais e melhor negócio!) serão escolas privadas, pagas com dinheiros públicos, que num ápice se transformarão em escolas de elite, com triagem social e académica prévia dos alunos. Quanto aos alunos sobrantes, os que não passarem na seleção – os socialmente desfavorecidos, os alunos com necessidades educativas especiais, portadores de deficiência, ou os que tiverem um passado de insucesso – esses, os excluídos, ingressarão nas escolas públicas, que se transformarão em autênticos guetos, em “periferias”, para de seguida permitirem à direita engrossar os seus argumentos dizendo que as escolas públicas têm maus resultados, conflitos e indisciplina, ao invés das escolas privadas.
Ou seja, entraremos numa espiral que nos levará, a curtíssimo prazo, à criação de uma escola pública pobre, para pobres e excluídos.
E, já agora, onde estará a “liberdade de escolha” em Freixo de Espada à Cinta ou em Boticas, em Vila Velha do Ródão ou em Penalva do Castelo…?
A resposta é só uma: a verdadeira liberdade de escolha, em todo o país, está na qualificação da escola pública.
E isto é tão evidente que já não é só dito pelos socialistas-que-veem-fantasmas-em-todo-o-lado. É dito pelos mais insuspeitos sociais-democratas, uns de forma velada, mas outros de forma explícita, como é o caso de Manuela Ferreira Leite: “A liberdade de escolha tem graça nos três ou quatro primeiros anos. Ao fim de 10 anos ficamos com uma qualidade de ensino no privado que é para alguns (os que podem pagar) e no público que é para os que menos podem”.
Estamos, portanto, em Portugal a querer implementar um modelo que já deu resultados desastrosos noutros países, sendo os Estados Unidos da América o caso mais evidente. Para além disso o principal fator de mobilidade social, a educação, que conseguimos no pós-25 de abril, será irremediavelmente posto em causa, pois a educação e o sistema educativo deixam de estar vocacionados para a igualdade de oportunidades para se assumirem, ao invés, como reprodutores das desigualdades sociais.
Nada disto, infelizmente, surpreende neste PSD e neste CDS, para quem os valores sociais-democratas e humanistas foram há muito postergados.
A decisão quanto ao futuro está nas mãos dos portugueses que, creio, na sua esmagadora maioria, não se revendo nestas opções radicais de inspiração “Tea Party”, irão ser inequívocos na sua opção no próximo dia 4 de outubro.

Acácio Pinto

Mensagens populares deste blogue

Sermos David e Rafael, acalma-nos? Não, mas ampara-nos e torna-nos mais humanos!

  As palavras, essas, estão todas ditas. Todas. Mas continua a faltar-nos, a faltar-me, a compreensão. Uma explicação que seja. Só uma, para tão cruel desenlace. Da antiguidade até ao agora, o que é que ainda não foi dito? O que é que falta dizer? Nada e tudo. E aqui continuamos, longe, muito distantes, de encontrar a chave que nos abra a porta deste paradoxo. Bem sei que, quiçá, essa procura é uma impossibilidade. Que não existe qualquer via de acesso aos insondáveis desígnios. Da vida e da morte. Dos tempos de viver e de morrer. Não existe. E quando esses intentos acontecem em idades prematuras? Em idades temporãs? Tenras? Quando os olhos brilham? Quando os sonhos semeados estão a germinar? Aí, tudo colapsa. É a revolta. É o caos. Sermos David e Rafael, nestes tempos cruéis, não nos acalma. Sermos comunidade, não nos sossega. Partilharmos a dor da família, não nos apazigua. Sermos solidários, não nos aquieta. Bem sei que não. Mas, sejamos tudo isso, pois ainda é o q...

Frontal, genuíno, prestável: era assim o António Figueiredo Pina!

  Conheci-o no final dos anos 70. Trabalhava numa loja comercial, onde se vendia de tudo um pouco. Numa loja localizada na rua principal de Sátão, nas imediações do Foto Bela e do Café Sátão. Ali bem ao lado da barbearia, por Garret conhecida, e em frente da Papelaria Jota. Depois, ainda na rua principal, deslocou-se para o cruzamento de Rio de Moinhos, onde prosseguiu a sua atividade e onde se consolidou como comerciante de referência. Onde lançou e desenvolveu a marca que era conhecida em todo o concelho, a Casa Pina, recheando a sua loja de uma multiplicidade de ferramentas, tintas e artefactos. Sim, falo do António Figueiredo Pina. Do Pinita, como era tratado por tantos amigos e com quem estive, há cerca de um mês e meio, em sua casa. Conheceu-me e eu senti-me reconfortado, conforto que, naquele momento, creio que foi recíproco. - És o Acácio - disse, olhando-me nos olhos. Olhar que gravei e que guardo! Quem nunca entrou na sua loja para comprar fosse lá o que fosse? Naquel...

Murganheira: O melhor espumante de Portugal!

LETRASECONTEUDOS.PT Ficam no concelho de Tarouca, em Ucanha, a norte do distrito de Viseu, e são um mundo escondido sob aquela colina revestida pela vinha alinhada e bem verde, no verão, antes da colheita das uvas touriga, tinta roriz, gouveio, cerceal, chardonnay ou pinot . Trata-se das Caves da Murganheira e ali estão há mais de 60 anos.  Situadas num espaço magnífico, de transição entre a Beira e o Douro, as Caves da Murganheira conjugam modernidade e tradição. A modernidade do edifício onde se comercializa e prova o segredo encerrado em cada garrafa de espumante e a tradição das galerias das caves "escavadas" a pólvora e dinamite naquele maciço de granito azul. E se no edifício de prova - com um amplo salão, moderno e funcional, com uma enorme janela aberta sobre a magnífica paisagem vinhateira, que encantou os cistercienses - é necessário ar condicionado para manter uma temperatura, que contraste com o agreste calor estival, já nas galerias subterrâneas a temperatura...