António Costa e Silva: uma conversa que foi um hino à vida!
Afinal, ainda é possível conversar poeticamente sobre os temas
de prosa dura que assolam o mundo: alterações climática, geopolítica, recursos
naturais, economia, população, líderes mundiais, oceanos. Basta que a
moderadora da conversa seja Teresa Carvalho e o convidado António Costa e Silva, a primeira
proficiente e, o segundo, um comunicador brilhante.
Falo de quê?
Sim, é das 5.as de leitura que acontecem, regularmente, na
Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.
Claro está que os temas abordados não se resumiram aos
susoditos.
Também se falou de livros e de literatura (o lastro do
evento), de Angola, da prisão de São Paulo, de tortura, de dignidade e dos
limites da vida.
Foi uma sessão de encantamento, encantatória, aquela a que
assistimos.
Quais hipnotizadores a dizerem as palavras certeiras, uma a
uma, para que a plateia se rendesse àquele concerto, ambos foram sublimes,
parecendo inspirados ou comandados por uma batuta que parecia vir de um maestro
invisível, altaneiro e transcendente!
Mas não! Eram tão só eles! Os dois! Ao seu melhor nível!
Magnificentes: quer a suavidade das questões, ou das deixas, quer a doçura
das respostas, qual filosofia de vida!
Na sua narrativa, António Costa e Silva nunca brandiu ódio, mas decência.
Mesmo quando deixou um seu carrasco de mão estendida, o que diz muito da sua matriz,
do caráter e da superioridade de alguns de nós. Sim, António Costa e Silva é um
desses! Um ser humano inspirador, um homem que gosta mais da clareza, da
verdade, do que dos pântanos de partilha de responsabilidades que geram ineficácia.
Está claro, percebeu-se até pela fuga que fez ante o
desafio da moderadora, que não apreciou a sua passagem pelo interior da
governação. Por dentro de uma máquina de muitos pareceres e de poucas decisões.
A poesia também marcou presença. Esteve latente. Sentiu-se,
quando o convidado esteve vendado e as culatras foram manejadas, mas as balas acabaram
por não sair. Cheirou-se através das palavras que lhe saíam do coração, sobre
Angola. Sobre o seu Bié de horizontes infinitos! Sorveu-se da nostalgia com que
nos narrou o regresso à sua escola, à primária, em Catabola, a terra que o viu
nascer
A literatura também não faltou! Na citação, tão oportuna, de Herman
Hesse! De Camus e da geração que iria mudar o mundo (mas que não mudou) e dos temas do absurdo e da
condição humana! Das armadilhas que envolvem as nações e os homens! Do
pseudónimo António Valis, com que assinou o romance Desconseguiram Angola!
Que bela lição! Nem sei bem de quê. De literatura? De
ecologia? De geopolítica? De ciência?
Enfim, foi de tudo isso um pouco e de muito mais!
Um hino à vida! De vida feito!
Obrigado e parabéns.
Acácio Pinto
