Naquele tempo as termas estavam na moda e eram muitas as
pessoas que não passavam um ano sem ir a banhos. Bebiam-se as águas e faziam-se
os demais tratamentos que os médicos receitavam: inalações, gargarejos,
lavagens específicas do corpo e banhos diversos.
A temporada escolhida pelas pessoas que viviam da atividade
agrícola era normalmente a segunda quinzena de agosto ou a primeira de setembro,
épocas em que os trabalhos na terra davam alguma folga.
Para as pessoas da minha aldeia, Rãs, as termas que estavam
mais à mão eram as Caldas da Cavaca. Localizam-se no concelho de Aguiar da
Beira e pertenciam ao senhor Laires, que nos diziam ser muito rico e
que residia em Lisboa.
Foi ali, aproveitando as características químicas da água
(idênticas às demais existentes ainda hoje na região Viseu Dão Lafões), que
aquele empresário criou aquela unidade termal, que ao longo do tempo (até hoje)
passou por diversas vicissitudes. Não se tratava de um empreendimento de grande
dimensão mas, ainda assim, para além do edifício do balneário e fontanário
(Fonte dos Remédios), tinha um hotel, várias pensões e diversas casas que as
pessoas de mais longe poderiam arrendar para ali irem efetuar os seus
tratamentos.
Eu fui lá muitas vezes, na minha juventude, acompanhando o meu avô, o
meu tio e a minha mãe, que quase todos os anos lá iam, com saída de
casa às 7 horas e regresso por volta das 10. E guardo ainda hoje a beleza dos
espaços exteriores (jardins, arruamentos e bosque ao lado do balneário) bem
como a coerência global de todo o edificado.
E tenho, igualmente, bem vivas, nas minhas gavetas do tempo,
as atividades que eu praticava enquanto eles efetuavam os respetivos
tratamentos. Destaco as mais significativas: fazer tiro ao alvo com arco, sob a
orientação de um monitor que tinha sido campeão nacional; subir toda a
escadaria do balneário até à capela, lá no alto; ir pescar para os ribeiros adjacentes; caminhar até à lagoa de onde a água, por queda, fazia girar sistemas de
produção de eletricidade e outros equipamentos; ir tomar café ao bar do hotel, onde
trabalhava um amigo da minha aldeia; e ir ter com o forneiro, um senhor do
Soito de Golfar, que tinha a missão de meter lenha numa grande caldeira para
que as águas termais dos banhos estivessem sempre quentes.
Esses anos, 60, 70 e 80, foram tempos áureos de umas termas
que, depois disso, começaram a perder fulgor, definhando de ano para ano.
Como o encanto do local permanece e a qualidade das águas (creio) se mantém, desejo que as Caldas da Cavaca se reencontrem com um destino
de bem fazer à saúde das pessoas e à economia da região.
Acácio Pinto, 31 de agosto de 2025